Mudar é preciso

Na Igreja dizemos a palavra “conversão”, mudança de vida, ao receber uma boa notícia. Essa foi sempre a proposta de João Batista na preparação para a chegada de Jesus Cristo. João dizia: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). É referência a um passado e a um presente, a eminência de uma realidade nova, que exige também posturas renovadas de vida.

Determinadas mudanças necessitam de uma total varredura das peças ofensivas e prejudiciais. É o caso do Brasil, comandado por pessoas envolvidas com crime e marginalização. Portanto, peças não gratas, que orquestram maquinações de corrupção contra o povo e se estruturam para continuar no poder. Por isso a população está no fundo do poço, neutralizada e sem força para agir.

Desde suas origens, o Brasil vem sendo roubado e assaltado pelas oligarquias do ter e do poder. Como dar um basta nisso sem o convencimento da força que o povo tem nas mãos. Sentimos que a população brasileira está neutralizada e sem estímulo para a organização, sem força de ir para as ruas e às urnas. Mais do que nunca, alguma coisa realmente séria tem que ser mudada no país.

Nínive era uma cidade infiel, mas convocada pelas palavras do profeta Jonas, a um processo de conversão, e quem aceitasse, seria salvo. A mudança foi total atingindo, inclusivo, o rei do Império dos gentios (Jo 3,6). A voz de Jonas precisa ser ouvida no Brasil, a começar por quem é privilegiado pela prática da corrupção, da desonestidade e gerador de pobreza e violência no país.

O termo conversão era frequente nas palavras de Jesus, e tinha sentido de mudança de atitudes. Além de ser uma realidade pessoal, o era também na libertação social. Jesus não se conformava com a exploração feita aos pobres. Não deu principal atenção para os ricos e poderosos, porque seu deus é o dinheiro. Chegou a dizer: “Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração” (Mt 6,21).

O interessante é que a vida na terra é provisória e passa com tanta rapidez. Caminhamos para realidade definitiva, fora do tempo, que supõe sincronia com o provisório. Jesus confirma isso dizendo que Ele não quer a morte do pecador, e sim que ele se converta e viva. É impossível praticar a fé, a esperança e a caridade sem passar pelo caminho da mudança.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Compromisso com o Brasil

Num momento chamado de “novo ano”, sempre surgem disposições renovadas para a pessoa encarar novas oportunidades na construção de ambientes que favoreçam vida melhor. Os brasileiros têm um compromisso com seu país, mas que passa por decisões que comprovem atos de responsabilidade. Há muita coisa a ser feita na vasta diversidade de áreas da cultura moderna brasileira.

O Brasil é um país rico de história. Uma riqueza de atos positivos e de outros negativos. Tem um território privilegiado de oportunidades, bem usado por uns e mal usado por oportunistas e aproveitadores. Mas é uma Nação capaz de superar deficiências e desafios. Supõe seriedade de seu povo, tanto de governos como de governados, porque as responsabilidades são de todas as pessoas.

Aparecem crises e mais crises no cenário nacional. Reina uma onda de corrupção em todos os setores da vida pública. Políticos renomados carcomidos pela prática da desonestidade, desabonando sua continuidade no poder. Mas tudo depende da reação popular, que não conseguiu ainda entender a força que tem nas mãos. Os eleitores continuam se vendendo por poucos frágeis denários.

Refletir sobre o tema do compromisso é tocar na identidade das pessoas. A existência humana é vocacionada para administrar a obra da criação, mas é preciso ouvir a voz de Deus, que chama os indivíduos para a missão. Assim aconteceu com os grandes homens do passado, com patriarcas, profetas e apóstolos. A convocação continua em novos tempos, mas deve ser ouvida e assumida.

Numa sociedade sem limites, mesmo sabendo que tudo é permitido, nem tudo faz bem. A libertinagem é prejudicial e imoral, porque alguém sofre as consequências. É o caso dos atos injustos praticados contra o povo, os desvios públicos, as gestões desonestas, as infidelidades sem compromisso. No que realizamos, estamos ajudando o país a ser uma Nação de respeito e de honestidade?

Continua o tempo da esperança. Apesar da desconfiança na justiça, sempre há uma luz no fundo do poço, mesmo que ele seja muito fundo. Deus é grande e próximo de seu povo. Ele pode tocar no coração das pessoas e as motivar para reconstruir o país, porque nem tudo está perdido. Ele pode fazer surgir líderes “salvadores da pátria”, governos legítimos e apoiados na justiça humana e divina.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Exigências da paz

Começamos o novo ano civil falando e celebrando o dia mundial da paz, invocando a presença e as bençãos de Deus em todo o seu percurso. Assim faziam os israelitas, pedindo paz para a natureza e para o ser humano, convencidos de que Deus fazia brilhar para eles a luz de sua face. Era expressão de confiança e de esperança de um ano cheio de vitórias e de novas realizações.

Dizemos que Maria, a Mãe de Jesus, é a rainha da paz. Assim celebramos, no dia primeiro de janeiro, a Festa de Santa Maria, Mãe de Deus, aquela que trouxe ao mundo o Príncipe da Paz. Devemos ter a certeza de que Deus vem abençoar, através de Jesus, o novo ano, diminuindo a violência, a insegurança e o desrespeito existente entre as pessoas, as causas da falta de paz.

Aquele que vem trazer a paz, Jesus Cristo, se manifesta ao mundo como luz que brilha nas trevas da cultura da maldade e das incompreensões. Ele chega com simplicidade de vida e nasce num lugar desconhecido, na vila de Belém, local de origem do rei Davi. Esse humilde povoado foi visitado pelos reis Magos do Oriente, revelando como deve ser a prática de vida entre os diferentes.

O verdadeiro poder não está nas mãos dos “Herodes da vida”, dos endinheirados e votados, mas na força dos humildes, quando conscientes e organizados. Estamos em ano eleitoral, momento de manifestação de força através do voto. A paz depende dos políticos, porque em suas mãos está o poder de decisão, a construção das leis e a autenticidade da gestão pública.

A auto-estima do povo brasileiro precisa ser reconstruída, mas por pessoas de boa fé, diferentes do rei Herodes, que queria destruir o reinado de Jesus. Necessitamos de políticos comprometidos com as causas do povo mais carente, que defendam um país para todos, evitando os privilégios de uns em detrimento da maioria. Sem isso, a paz será, cada vez mais, impossível no Brasil.

A população brasileira clama sempre por um país diferente, próspero e humano. A paz verdadeira pode acontecer, mas quando as forças do poder forem convergentes, preocupadas com o bem da população. Carecemos de um projeto que seja realmente sério de desenvolvimento, o “novo nome da paz”, no Brasil. Tudo depende de vontade política e capacidade de ação com liberdade.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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O sentido da vida

As raízes da identidade de um povo estão no sentido que damos para a vida humana, que tem a família como fonte de estrutura existencial. A vinda de Jesus se deu com seu nascimento numa família, fazendo o mesmo caminho de todos os seres humanos. Sua estrutura, como pessoa, foi absolvida dos princípios oferecidos por seus pais, fazendo a trajetória comum de todas as famílias.

Além de gerar vida, as famílias são também fontes dos valores essenciais para as práticas cristãs e de cidadania. Isso nos faz entender que a sociedade necessita de famílias bem estruturadas para que tenhamos pessoas de caráter, de bom comportamento, de responsabilidade e comprometidas com a vida da sociedade. Sem estrutura familiar não temos como entender o sentido da vida.

Olhando para a Família de Nazaré, Jesus, Maria e José, modelo para todas as entidades familiares, isso nos faz pensar no papel atual da família, que passa por uma crise de identidade, mas ainda é uma das instituições capaz de harmonizar a sociedade. As pessoas ainda arriscam suas vidas para defendê-la, porque os laços familiares, mesmo os mais frágeis, são comprometedores.

Muitas das responsabilidades, que são próprias dos pais, estão sendo transferidas para outras entidades. É o sintoma de uma sociedade que terceiriza tudo, inclusive a formação das crianças nos seus primeiros tempos de vida. Entendemos essa realidade como fragilização dos compromissos essenciais dos pais, trazendo como consequência direta perda do clima e da estrutura familiar.

Os filhos são dons de Deus, fundamentados no amor conjugal, com capacidade para educar na fé e nos princípios cristãos. Por exigência ética, eles têm o dever de amar os pais e ajudá-los em suas necessidades. Muitos os abandonam em casas de acolhimento por considerá-los como “peso” em suas vidas. Tem vida longa e próspera quem cuida bem de seus pais (cf. Eclo 3,3-7).

A vida tem verdadeiro sentido quando fundamentada em algumas virtudes propriamente familiares e humanas, como na humildade, na mansidão, na paciência, no perdão etc. Sem convivência e bom relacionamento comunitário a existência pessoal e familiar cai no esvaziamento e a fraternidade fica comprometida, impedindo a realização da pessoa como ser humano.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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É Natal do Senhor

Como os tempos passam com tanta rapidez! Mas celebrar o Natal é dar destaque para uma Festa de um aniversário sempre novo, porque o aniversariante não fica velho, e nem aquele que consegue encontrá-Lo nesse momento privilegiado do ano. É a presença de Deus na história do passado e do presente, realizando um plano de salvação, transformando o egoísmo e a violência em amor e paz.

Deus, ao enviar seu Filho ao mundo, fez uma trajetória humana, contando com a intermediação da jovem Maria de Nazaré, uma mulher autônoma, amorosa, livre e determinada para realizar o projeto pontuado pelos profetas no Antigo Testamento. Ação determinada pela decisão de uma mulher, superando todos os conceitos que privilegiavam o sexo masculino nas decisões.

No contexto do Natal, toda cena, que marcou a história do povo de Deus, envolvendo o recenciamento, a manjedoura e o nascimento de Jesus, foi preconizada por uma esperança messiânica de vida nova. Isso já estava contido no anúncio do Anjo a Maria, dizendo que ela daria a vida a um ser humano, mas também divino, pela ação do Espírito Santo.

Dizer hoje “Feliz Natal” para alguém é desejar que haja comprometimento com a Pessoa de Jesus Cristo. É como abrir espaço no coração, fazendo aí morada digna de Deus. Então, Natal é mais do que uma festa de um nascimento histórico. É uma vida divina que vem ao encontro de uma vida humana, para resgatá-la das amarras da servidão e da escravidão, que sufoca a dignidade das pessoas.

O Evangelho é muito claro quando fala de Jesus Cristo. Mostra a caminhada de José e Maria saindo da Galileia para a Judeia, para cumprir a ordem estabelecida pelo governador, de que todos deveriam ser recenseados. Maria estava nos últimos tempos de gravidez, tendo que enfrentar o desafio da carência de hospedagem na cidade de Belém, onde nasceu Jesus.

Natal é mistério, mesmo que a cultura hodierna não consiga atingir sua total dimensão e sua riqueza como resposta da fidelidade de Deus para com as necessidades do mundo. No meio de tantos desafios como violência, injustiça, desmandos, agressão à vida, Deus conduz a história num projeto totalmente de amor. Ele é o Emanuel, o Deus conosco, que quer de nós um “sim” de responsabilidade.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Espírito de alegria

Apesar da miséria, da violência e das guerras no mundo, a pessoa não pode perder o bom humor e a alegria na vida. Não encarar os sofrimentos somente com tristeza, porque neles existem também vestígios de coisas boas. Numa dimensão de fé, temos a garantia de que Deus está presente em todos os momentos da caminhada do povo, para ajudá-lo na construção do reino da paz.

A alegria é consequência, quase que imediata, da prática da fraternidade, da justiça, do amor e da paz. Viver essas dimensões com autenticidade, com base no amor de Deus pela humanidade, é construir uma sociedade onde reina a confiança e a esperança de uma vida aberta para o Espírito de prazer verdadeiro. É como uma luz que brilha e abre caminhos para a realização de objetivos reais.

Duas figuras bíblicas aparecem nos relatos do Advento e do Natal: João Batista e Jesus Cristo. João, com palavras provocadoras, prepara a vinda de Jesus, fazendo a transição do Antigo para o Novo Testamento. Em seus anúncios, diz que veio testemunhar a chegada da luz. Essa luz era o Verbo, o Filho de Deus, que ia nascer. Ele veio despertar a fé nas pessoas para que acolhessem Jesus.

O nascimento de Jesus Cristo foi a realização de uma longa espera, sempre anunciada pelos profetas, e agora transformada em alegria, porque é a presença de Deus no meio do povo. O Papa Francisco tem falado ao mundo dessa alegria, que vem do encontro pessoal com Deus, através de Jesus Cristo. Não é uma alegria falsa, superficial, mas que muda o rumo da vida das pessoas.

João Batista, como ungido do Senhor, veio como portador da mensagem divina, para anunciar o tempo da graça de Deus, ou tempo de libertação. Sua intenção era abrir caminho para a chegada do Menino Deus no coração das pessoas. Essa via é obstruída pelas injustiças, maldades, violências, más condutas, como montanhas e vales nas estradas, que precisam ser acertadas.

Sentimos hoje quanta fragilidade existe no meio do povo. Quantos impecílios para que Cristo nasça no coração das pessoas. Mas por fidelidade Deus nos convida à santidade, ao encontro pessoal com Ele. Ao falar do “espírito de alegria”, sentimos muita tristeza quando vemos pessoas passando necessidade do essencial para viver, com falta de saúde, educação, trabalho, moradia etc.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Tudo novo

A sensação de final de ano é muito agradável. É colheita da uma caminhada tumultuada de atividades, mas também a alegria de que tudo vai começar de novo. “Descartamos” o passado, cheio de experiências positivas e negativas, para agora iniciar 2018 com a expectativa de que seja um ano promissor, de realizações positivas e de escolhas responsáveis e iluminadas pelo Espírito de Deus.

O nascimento de Jesus passa pelas palavras sábias de João Batista, fazendo a transição do Antigo para o Novo Testamento. Ele proclama a chegada dos novos tempos e anuncia a realização da profecia de Isaías 7,14: “De uma virgem nascerá o Emanuel, Deus conosco”. O divino se torna humano, um de nós, para divinizar o humano e realizar a plenitude da Aliança feita por Deus com Abraão.

Mas a história continua sua trajetória, agora em novos tempos, novas realizações da cultura moderna, novas tecnologias, numa cibernética encantadora. Parece até ultrapassar os limites da capacidade humana, transformando o ser humano em ser submisso aos inventos da capacidade intelectual. Mas não descartamos, que tudo isso, nada mais é do que os talentos presentas nas pessoas.

Na verdade, o que é sempre novo é o amor proclamado por Jesus cristo. Ele é percebido nas atitudes concretas das pessoas, em sua forma de atuar na sociedade e na capacidade de doação para fazer o outro feliz. Não é amor egoísta, individualista ou intimista, que valoriza só o bem estar pessoal. A dinâmica de Jesus teve sua culminância na cruz, entregando-se totalmente num gesto salvador.

Estamos em tempo de muitas incertezas, num país cheio de incógnitas, desconfiados das autoridades de hoje e preocupados com o novo que deverá chegar. Teremos eleições em 2018 e há o perigo da continuação do velho e esperto político que faz da política um cabide de emprego. E são muitos que não abrem mão do poder e não deixam entrar novas lideranças para formar um Estado novo.

Celebrar a Festa do Natal deve ser celebração da esperança, porque Deus sempre foi fiel em conduzir o povo para a liberdade e a paz. Nas dimensões difíceis da sociedade atual, os cristãos devem demonstrar grandeza em sua fé e lutar para construir “novos céus e nova terra” (II Pd 3,13). Nessa nova terra deverá ser praticada a justiça, transformando o egoísmo no reino de fraternidade e paz.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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A vinda do Senhor

Conforme a Palavra de Deus, a vinda de Jesus deve ser compreendida em duas dimensões, mas que fundamenta nossos conceitos de fé. A primeira, já prevista pelo Antigo Testamento, principalmente nas palavras do profeta Isaías, “de uma virgem nascerá o Emanuel” (cf. Is 7,14), acontece no dia do Natal. É a realização da encarnação do Verbo, Deus que se torna homem.

A segunda vinda do Senhor é anunciada como tempo de julgamento, quando os maus serão separados dos bons e serão destinados para a eternidade. Aí acontecerá a justiça divina, o “acerto de contas” com as pessoas, tendo como fonte os atos praticados na vida terrena. Para quem foi capaz de valorizar o processo do perdão e da reconciliação, certamente terá a misericórdia de Deus.

Em tempo de Advento, a meta é despertar nas pessoas atitudes de vigilância. A vida de fé é comprometedora, que exige ações concretas praticadas em benefício da coletividade. Nisso está o julgamento de Deus, como uma balança que mede o peso do que é feito, seja de bem ou de mal. Por isso, a vigilância é o equilíbrio de hoje no caminho para a hora da colheita, do julgamento final.

Advento é tempo forte de espera e de compromisso com a construção do Reino. Ele propõe superação das dificuldades e transformação dos corações endurecidos para acolher, na suavidade, Aquele que dá sentido para a vida. O nascimento de Jesus é a manifestação da bondade de Deus para com seu povo, oportunizando espaço de libertação e vida para quem Nele professa sua fé.

A vinda do Senhor teve como finalidade revelar a graça de Deus e de construir a paz entre as pessoas. Graça e paz são termos ricos de conteúdo, porque tocam de perto nos objetivos do Reino. Deus nos dá tudo de graça, mas quer que construamos a paz, para que reine o amor e a fraternidade. Não há paz verdadeira onde a graça de Deus não é percebida e nem valorizada.

Ser seguidor de Jesus Cristo é comprometer-se com Ele, com a vigilância e com o seu projeto de vida, confirmado pela dignidade e pela graça. É um enfrentamento com responsabilidade, sem pompa e sem glórias em relação ao mundo, mas desimpedido para receber a recompensa prometida pelo Senhor. É um processo de conversão, próprio para quem se prepara para o Natal.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Frutos do Reino

Chegamos a mais um final de Ano Litúrgico. Ele começa com a vinda de Jesus, com o título de Rei, conforme vemos no anúncio do Tempo do Advento, e termina na cruz, sendo proclamado Rei dos judeus. A presença de Deus na terra, em Jesus Cristo encarnado, teve como objetivo construir o Reino da vida. Sua finalidade é produzir frutos para ajudar no bem viver das pessoas.

A presença física de Jesus, na terra e no tempo, foi para distribuir a semente do bem e manifestar a bondade amorosa de Deus-Pai para todos os seus filhos. Não há distinção entre as pessoas. É por isso que Ele “faz nascer o sol sobre os bons e os maus” (Mt 5,45). Esse gesto seja percebido pela humanidade, colhendo os frutos da árvore, plantada com todo carinho, por Jesus.

Falar do Reino de Deus é olhar para a presença divina no ambiente humano. Seu início foi construído na história do Antigo Testamento e concretizado com o Natal do Senhor.  Seu fim, certamente, será com o julgamento no final dos tempos. Significa que o Reino coincide com a realização da justiça, com a identificação dos que foram justos, não agiram de forma desonesta e injusta.

Na prática, no Reino de Deus estão os bons os ruins, os solidários e os egoístas, da forma como diz a parábola do trigo e do joio. Os dois serão separados na hora da colheita. Os maus serão lançados no fogo destruidor, como foi o destino previsto para o joio. A convivência de ambos revela a paciência do Dono do Reino, na espera que os maus mudem de atitudes e se tornem bons.

A convivência vai até o fim dos tempos. Mas terão que comparecer diante do tribunal e do julgamento de Deus. Serão julgados os frutos produzidos, bons ou maus. No Reino definitivo não devem entrar egoístas, intolerantes, indiferentes e injustos. Esse julgamento final passa pelos atos que se praticam hoje, pela fidelidade aos princípios da justiça e à prática do bem.

O fim do ano aponta para o fim dos tempos. Reforça o compromisso que temos de viver bem hoje, quando estamos na espera da segunda vinda do Senhor, mas para julgar os nossos atos. Ainda é tempo de superar o egoísmo e todo tipo de pecado. O mais saudável é partilhar a vida, porque isso expressa a profundidade do Reino de Deus, de produzir frutos de amor ao irmão.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Prática dos dons

O termo “dom” significa uma virtude doada de graça, de forma desinteressada, com a finalidade de construir o bem. Todas as pessoas já nascem com determinadas qualidades, que podem e devem ser aperfeiçoadas e colocadas para realizar coisas boas, mas também, para maquinar atitudes de destruição e de maldade. Talvez o ambiente de convivência possa direcionar a prática das virtudes.

Existe muito acomodamento de pessoas privilegiadas de dons naturais, mas totalmente improdutivas. Realizam aquilo que Jesus proclama no Evangelho, isto é, talentos que ficam escondidos debaixo da terra. São os chamados cristãos que não se preocupam com a construção do Reino de Deus. Deixam-se levar pelo desânimo e pelos problemas que devem ser enfrentados com coragem.

Existem pessoas construtoras do bem, que olham para o futuro com esperança e investem, com determinação, no que podem para construir a vida de forma saudável. O bem da sociedade é de responsabilidade de todos os seus membros, cada um com suas possibilidades, mas precisam agir. Esconder os dons é dificultar a outros a realização do verdadeiro sentido da vida com dignidade.

Fazer render os próprios dons, os talentos, é ser capaz de desenvolver as capacidades humanas com objetivos claros na realização de uma sociedade fraterna. Isso facilita os compromissos com a partilha e a soma das riquezas presentes na vida de uma comunidade. O contrário disso, o medo, o comodismo, o fechamento, não ajuda, e prejudica aos que deveriam ser beneficiados.

Na verdade, temos capacidade para construir e para destruir os instrumentos da vida. Ao dizer, “dominai a terra”, o Criador revela o desejo de que a criação fosse aperfeiçoada pelas pessoas. Para isso, Ele qualificou com dons diferentes para cada uma. Muitas utilizam suas capacidades para desconstruir e causar sofrimento aos demais. Tornam-se afronta para quem espera uma vida feliz.

A vida é marcada por surpresas, às vezes agradáveis, mas também com grandes sofrimentos. Na visão cristã, a base está na prática do amor, na fraternidade e no bem das pessoas. Saindo do comodismo podemos gerar uma cultura de mais estabilidade e conforto para todos. Não podemos ficar na insegurança, no medo e na desconstrução daquilo que permite o espaço da vida.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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