A Igreja na revolução cívico-militar

Neste fim de março a mídia esteve repleta de reminiscências do movimento revolucionário de 64. É evidente que os vencedores é que contam a história.  Já os Romanos diziam: “vae victis”(ai dos vencidos). Mas os nossos vencedores nada falaram – nadinha – da participação da Igreja nesses 21 anos de exceção. Cada um só contou as suas glórias. É como se a CNBB nem tivesse existido. A sua influência para a redemocratização foi fundamental. Vou rememorar episódios a partir da minha experiência. Antes de eclodir a marcha dos Militares, havia por toda a parte um medo generalizado. Pessoas do povo diziam à surdina: “os vermelhos estão chegando”. Criaram-se os Grupos dos Onze, cujas intenções não eram ingênuas. Falavam abertamente em “revolução socialista”. E se suas idéias de fato não eram marxistas, não faziam nenhuma questão em ser mal interpretados. Houve até um “ensaio geral” em cidade do Rio Grande do Sul.  Num só dia esses Grupos se apoderaram de todas as instalações públicas: rádio, jornal, centro telefônico, delegacia de polícia, estação rodoviária, hospital, central elétrica… Viram que tudo estava “caindo  de  maduro” no colo dos revolucionários. Nós da Igreja apenas ficamos estupefatos e inermes. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade teve uma gênese, sem ação direta da Igreja. Quando estourou a Revolução de 31 de março, dentro do ambiente eclesial houve uma sensação de alívio. Dizia-se: o Exército bateu a carteira dos revolucionários. No dia 02 de abril houve no Rio uma manifestação cívica, de 1 milhão de pessoas, de apoio.

Mas para mim (penso que para os demais clérigos também), houve um grande desencanto com a publicação do AI 2. Este nos mostrou que os Militares não vieram só para pôr a casa em ordem, e se retirar. Vieram para ficar. Vi vários Padres professores, meus colegas, serem interrogados como subversivos. O Juiz Federal, tendo sido pego com amante em seu carro, foi levado ao quartel para interrogatório. Vários oficiais do Exército, tendo dúvidas sobre o uso de torturas, me consultaram sobre a sua liceidade. Como eu não sabia se a conversa era séria, ou se era armadilha, procurei falar platitudes. Mas no dia 13 de dezembro de 1968, com a publicação do AI 5, entrei na terceira fase: fiquei contra a Revolução. Penso que também a maioria dos homens de Igreja. Devemos à corajosa CNBB que a restauração das liberdades acontecesse sem guerra. Seu documento “Exigências cristãs de uma ordem política”serviu de rumo para a maioria de nossos homens públicos. Sua leitura faria bem a todos, – sobretudo o nº 37-  mesmo hoje.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo Emérito de Uberaba, MG.

            Endereço eletrônico: domroqueopp@terra.com.br

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