Tempo de misericórdia

Entendemos ser muito desafiante falar sobre misericórdia se vivemos numa sociedade com uma profunda marca competitiva. Ao rezar a oração do Pai Nosso, nós dizemos: “perdoai-nos como nós perdoamos”. Digo isto, porque a misericórdia supõe o exercício da bondade de forma ilimitada, o perdão mútuo e a abertura do coração, superando toda atitude de vingança e de enclausuramento.

A extensão do mal tem uma amplitude quase incontrolável. Ele destrói a dignidade da vida e os valores que a acompanham. Mas o bem também se propaga, talvez mais lentamente e com mais sacrifício, quando assumido de forma autêntica, porque faz bem para aquele que faz o bem. Jesus ressalta a importância do perdão, que seja “até setenta vezes sete vezes” (Mt 18,22).

A falta de perdão abre espaço para uma corrente sem conta de violência. A misericórdia tem que ser maior do que a vingança, do que as mágoas e os rancores, porque ela reflete a beleza do ser humano, fundamentado no princípio do amor e da fraternidade. A razão das pessoas tem capacidade para escolher aquilo que lhe proporcione vida digna e feliz. Basta fazer autêntico discernimento.

As pessoas afastadas de Deus, com muita facilidade, nutrem o espírito de ira, aquilo que fica alojado em seus corações. Dizendo de forma diversa, a intimidade com o Senhor da Vida facilita a prática da misericórdia. Em última instância, todos nós somos iguais perante Deus. A morte será para todos, mas temida por quem não se encontra realizando os valores pontuados por Jesus nos Evangelhos.

Na prática, todas as pessoas têm uma unidade essencial, própria do ser humano, mas diferenciadas na diversidade de dons, das profissões, de religião e nas outras formas de agir. Unidade é diferente de uniformidade, mas os dois modos não podem dificultar a vida de comunidade. O apóstolo Paulo fala de uma realidade, que é fundamental: “Ninguém vive para si mesmo” (Rm 14,7).

Existem pessoas que caminham dando passos diferentes da maioria dos demais, seguindo outras trajetórias. No entanto, não podem perder a capacidade de relacionamento e convivência. Para isso, é importante construir pontes de ligação entre os indivíduos e de diálogo frutuoso, em vez de muros que dificultam e também impedem a convivência fraterna na vida comunitária.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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