Dom José Pedro de Araujo Costa

Vaticano II e as crises pós-conciliares

Atualmente, 50 anos depois do Vaticano II, a vitoriosa Igreja de Cristo já não vive mais aquele ultrapassado clima dos primeiros anos após o Vaticano II, quando até o título da Constituição “Lumen Gentium” ou “A Igreja que é a Luz para todos os Povos” era ridicularizado por políticos e economistas. Na antiga tridentina liturgia da Missa, Leigas e leigos nada entendiam o Latim e por isso rezavam o terço durante as Missas. Só silenciavam durante a consagração. Leigas e leigos depois do Concilio ficaram cheios de honrosos méritos passando a participar ativamente como “POVO DE DEUS”. Alguns católicos latino-americanos criticavam a Igreja por não apoiar a Teologia da Libertação. No Brasil, acelerava-se o doloroso êxodo rural do catolicismo popular sem assistência pastoral.

Duas notórias mudanças culturais completamente circunstanciais: o êxodo rural e as mudanças na Igreja Católica pós-conciliar. Anexas a essas duas influências completamente circunstanciais chegaram ao Brasil também novas bem orquestradas influências cristãs bíblicas anunciadas ao povo de maneira quase igual à usada no tradicional catolicismo romano. Tais novas influências foram inicialmente muito apoiadas por países nórdicos. Antes do Vaticano II, só padres e bispos podiam “pregar” ou ensinar o Evangelho. Após o Vaticano II, pela novidade participativa, leigas e leigos dotados de sólida evangelização, já pregavam o Evangelho. Entusiasmados pelo desejo de se adaptarem bem aos costumes das cidades, os católicos vindos do êxodo rural, facilmente aceitavam com muita honra os convites para frequentar a Igreja mais próxima, a Igreja Evangélica. É muito comum que em todo modernismo o povo se deixe influenciar pela arte de marketing. Por marketing, não usar batom foi considerada essencial prática cristã. Orar em lugar de rezar. Por que repetir muitas Ave Marias? (Lc. 1, 28) A nomenclatura de “protestante”, que trazia em si uma ideia opositora, devia ser abolida, mesmo porque, politicamente, o evangelismo importado dos Estados Unidos nunca poderia ser considerado opositor ao catolicismo brasileiro. Em lugar de Igrejas Protestantes; Igrejas Evangélicas. Em São Paulo, era aberta uma nova Igreja Evangélica a cada semana, quase a prenunciar o fim da Igreja Católica. Nesse clima negativista, não é de se estranhar que em dezembro de 1972 foi fechado o Seminário São José, por absoluta falta de candidatos e que muitos padres abandonaram o sacerdócio.    

Arcebispos heróicos

Não se mantém tradição por 2.000 anos sem enorme paixão. Em todas as adversidades históricas, a Igreja manteve o seu tradicional heroísmo apostólico, forte pois que movido à Graça Divina. Dom José Pedro Costa e Dom Alexandre foram dois heróis de uma mesma época. Maior herói foi o Senhor Dom Alexandre, fiel, obediente, silencioso ao suportar a subtração de suas prerrogativas arquidiocesanas. Inteligente, entendeu que as decisões “administrativas” da Nunciatura Apostólica, eram igualmente decisões pontifícias. Incondicional seu amor à Igreja e ao Papa. Dois Arcebispos, participantes do Vaticano II, entendiam, cada um a seu modo, o aguardado “aggiornamento”. Dois nobres bispos de liderança comprovada na Igreja e na Sociedade Civil.

Dom José foi Bispo, Arcebispo Coadjutor, Professor, Escritor, Jornalista. Nasceu no Serro, em 19 de outubro de 1913, e estudou no Grupo Escolar João Pinheiro. No seminário de Diamantina, em 06 de dezembro de 1936, ordenou-se padre. Residiu mais de 30 anos em Diamantina, onde lecionou no Seminário e no Colégio Diamantinense, que veio a dirigir. Trabalhou em Tribunal Eclesiástico.

Sempre considerado um intelectual de grande cultura e um dos maiores oradores sacros do Brasil, D. José Pedro tomou posse na Academia de Letras do Triângulo Mineiro, em 22 de dezembro de 1972, e na Academia Municipalista de Letras de MG, em 07 de setembro de 1980, representando a cidade de Serro. É apontado como o único Bispo brasileiro que teve uma Carta Pastoral reeditada em Roma, a qual trata de decisões conciliares. Publicou diversos escritos, sendo autor de artigos, biografias, interessantes pesquisas históricas, discursos e sermões.

Em Diamantina-MG, foi Capelão Tenente do 3.º Batalhão da Polícia Militar, Diretor do Museu do Diamante, Diretor do jornal “Estrela Polar” e Cônego do Cabido Metropolitano. E lá, em 15 de setembro de 1957, foi sagrado Bispo de Caitité-BA. Em 30 de março de 1969 foi nomeado Arcebispo Titular de Marceliana e Arcebispo Coadjutor e Administrador Apostólico “Sede Plena” de Uberaba, com direito à sucessão. Posse em Uberaba a 10 de maio de 1970.

Vinda de Dom José Pedro a Uberaba

Em Uberaba não havia ainda vacância na Sede Arquidiocesana. A Bíblia revela a Exemplar SABEDORIA que administrada a eternidade, toda a Criação e a religião. Ter amor à Bíblia é também crer que o livro da Sabedoria já testemunhava a implacável Vontade de Deus contra as crises pós-conciliares: “Enquanto um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite estava pela metade, a tua Palavra todo-poderosa VEIO do alto do céu, do teu trono real, como um guerreiro implacável, e se atirou sobre uma terra condenada ao extermínio”. (Sab. 18, 14). Em clima de Sabedoria, em 2013, a Igreja de Uberaba pode perfeitamente bem entender aquela inusitada participação “auxiliar” de Dom José Pedro Costa em nossa Arquidiocese, porque a Sabedoria Bíblica não é só do espaço etéreo, mas é terrena, humana, societária e se repleta das prerrogativas da “Graça”. Ouso justificar a decisão da Nunciatura, em 30 de maio de 1969, Arcebispo Coadjutor e Administrador Apostólico “Sede Plena”, através de 4 vinculados antecedentes.

1º – Dom José Pedro Costa tinha sido admiradíssimo capelão militar do 3º Batalhão da Polícia Militar de Diamantina/MG, amigo de militares e bem visto pela Revolução 64. Por seu turno, Dom Alexandre se indispôs com o Comandante do 4º Batalhão de Uberaba, porque a Polícia prendera um jornalista do Jornal Correio Católico, por suposição a injustificadas ligações “comunistas” a padres dirigentes do Jornal Católico.

2º – Em sua ordenação episcopal, o bispo de sua sagração foi o Senhor Núncio Apostólico Dom Armando Lombardi.

3º – Seu padrinho de Ordenação Episcopal foi o então Presidente Juscelino Kubistscheck. Seria o candidato ideal para melhorar o diálogo com o Governo Mineiro.

4º – A Nunciatura Apostólica avaliou a repercussão negativa da publicação em jornal uberabense do “Manifesto” dos Sacerdotes de Uberaba, a 4 de junho de 1956, solicitando nova disciplina para o uso da batina e da tonsura. Dom Alexandre teve dificuldade ao planejar o aguardado “aggiornamento” em sua Arquidiocese.

Hoje só nos resta aprovar todos os atos da Nunciatura. Afinal das contas, a Prudência é uma virtude eminentemente eclesiástica e apostólica.

Realizações em Uberaba

Na Circular de 23 de junho de 1970, Dom José Pedro anuncia a dispensa do uso do manípulo nas Missas – aquele enfeitado bordado pendurado ao braço esquerdo do celebrante eucarístico, que era símbolo de nobreza a antigos nobres romanos ao presidir a solenidades –, mas exigiu o uso da casula em todas as Missas. Introduziu o uso de Ministros da Eucaristia. Os 10 primeiros Ministros da Eucaristia do mundo tinham sido nomeados pelo Bispo de Luz-MG, a 1º de janeiro de 1967, e Dom José Pedro foi um dos primeiros Bispos a nomear Ministros da Eucaristia. Em 21 de dezembro de 1972, houve a solene apresentação dos 4 primeiros Ministros da Eucaristia na Catedral. Recomendou a Comunhão só de joelhos, e que durante o “abraço da paz”, o sacerdote permanecesse parado ao altar, abraçando somente só os ajudantes da Missa, a fim de evitar “teatralizações”. Já a Circular de 23 de junho de 1970 permitia a padres o uso do “clergyman”.

Em 5 de abril de 1972, dá licença para a Arquidiocese vender todas as máquinas impressoras do Jornal Correio Católico para “Rio Grande Artes Gráficas Limitada” do ilustre empresário Dr. Edson Gonçalves Prata, e saldou as dívidas da Arquidiocese. Disposições semelhantes estavam sendo adotadas em outras Dioceses do globo.

Renúncia e morte

Em 1978, com seus 72 anos, Dom Alexandre não demonstrava nenhuma intenção de renunciar, tão cedo, mas a Nunciatura aconselhou a Dom José Pedro Costa a renúncia. Em resposta, condicionou-a à renúncia também de Dom Alexandre. Em 19 de Julho de 1978 chegou a notícia das duas renúncias dos Arcebispos e a nomeação de D. Benedicto de Ulhoa Vieira.

Dom José Pedro Costa se recolheu à cidade do Serro-MG, em família. Apesar de ainda exercer nobres funções pastorais, sua saúde debilitava-se, e veio a falecer a 27 de julho de 1996. O Senhor Arcebispo  Dom  Aloisio Roque Oppermann, representando a Arquidiocese de Uberaba, chegou ainda em tempo de oficiar as exéquias.

PorCarlos Pedroso

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