Igreja de São Domingos (1904)

Dando prosseguimento à nossa pretensão de percorrer a História Eclesiástica da Arquidiocese de Uberaba por meio das mais antigas igrejas ainda existentes, falaremos este mês da igreja de São Domingos. Alguns poderiam acreditar, confusamente, que esta sequência de artigos sobre tais igrejas se trata simplesmente de uma história material que procura datar construções, reformas e estilos arquitetônicos destas senhoras centenárias de pedras e tijolos. Ao contrário, nosso objetivo é tomar essas igrejas-templo, igrejas-edifício, igrejas-espaço em sua relação intrínseca à Igreja-Povo, Igreja-Comunidade, Igreja-Ação. Não acreditamos que essa introdução seria mais pertinente do que num artigo que tem como estrela a orgulhosa igreja de São Domingos. Isto porque as histórias da igreja dedicada a São Domingos se confundem com as histórias dos seguidores deste santo – os dominicanos.

Sendo o cristianismo uma religião essencialmente vinculada à esperança de se construir um futuro melhor onde todos estejam cada vez mais em comunhão com o ser cristão, é natural que a reação da Igreja em seus momentos de crise seja o olhar adiante, isto é, a esperança confiante num futuro melhor mediante sobre própria ação. Entre 1869 e 1870 aconteceu o Concílio Vaticano Ique trouxe como resposta à crise da modernidade – representada principalmente pela tríade racionalismo, materialismo e ateísmo – a certeza na autoridade da Igreja e a proposta de, tal como acontecera anteriormente diante da Reforma Protestante, contemplar o horizonte e redescobrir que é somente pelo espírito missionário que se justifica a perenidade da Igreja. Foi neste contexto que, em 1881, os primeiros dominicanos vieram da França a Uberaba sob o convite do então bispo de Goiás, D. Cláudio Poncé de León – ele próprio um estrangeiro e religioso.

A Ordem dos Pregadores – OP foi fundada por São Domingos em 1216 (neste ano se comemora o jubileu de 800 anos de fundação) em Toulouse, na França, num contexto conturbado de transição entre o mundo medieval e o mundo moderno. Visto que parte de seu carisma se dedica a uma busca incansável da verdade é correto dizer que se tornaram sujeitos históricos ativos desde seu surgimento. Em 1881, os poucos sacerdotes dominicanos que se instalaram em Uberaba realizavam os ofícios religiosos e os trabalhos pastorais na igreja de Santa Rita, que tratamos no artigo do mês anterior. Por conta do aumento do número de pessoas que ingressaram naquela comunidade, iniciou-se em 1889 a construção de uma igreja dedicada a São Domingos que seria inaugurada em 1904, ainda que inacabada (sem as torres e abóbadas centrais). Importante destacar que a igreja foi construída após a abolição da escravidão (1888) e praticamente após a proclamação da República – com o melhor do espírito livre e republicano próprio dos dominicanos. É sintomático que sua inauguração tenha sido feita sob o canto do Hino Brasileiro, da Marcha Pontifical e da Marselhesa (hino da França, mas sobretudo do espírito de liberdade, igualdade e fraternidade).

Com a criação da Diocese de Uberaba, realiza-se, em 1908, a posse de nosso primeiro bispo, D. Eduardo Duarte Silva, entre as paredes e sob o patrocínio de São Domingos. Ambos sacerdotes, peregrinos e servos neste vasto mundo.

Tempos depois, enquanto torres eram derrubadas pelo ressoar dos canhões em vários cantos da Europa a partir de 1914 por conta do início da Primeira Guerra Mundial, neste canto do Brasil Central eram inauguradas as duas torres da igreja de São Domingos.

Na década de 1940 a população urbana em Uberaba superou aquela ainda residente na zona rural, processo dez anos prematura quando comparado à média nacional. Isso explica, em grande parte o crescente número de criações de paróquias pelo bispo D. Alexandre G. Amaral que tomara posse em 1939. Deste referido processo, a primeira paróquia que viria a ser criada seria justamente a de São Domingos em 1941 que haveria de permanecer sob o pastoreio dos dominicanos e que aglutinaria também a histórica igreja dedicada a Santa Rita.

Destacamos também uma grande reforma em 1963 sob a administração de Frei Domingos Maria Leite e do Arquiteto Carlos Millan: foram instalados novos altares, recolocado o telhado e repostos os vitrais. Em 1981 – ano do centenário da missão dominicana no Brasil – o Prefeito Silvério Cartafina apoiou uma nova reforma na Igreja que substituiu estruturas de madeira por outras mais resistentes de metal.

Atualmente a Paróquia de São Domingos serve também como Casa do Noviciado da Ordem dos Pregadores e possui como pároco Frei Luís Antônio Alves.

Por Vitor Lacerda

Compartilhe!
0 respostas

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *