Padre Alaor Porfírio

É importante introduzirmos este artigo ressaltando a inseparável associação que se estabelece entre o que podemos chamar de história da Igreja particular de Uberaba com a própria história desta cidade e por conseguinte de todo o Brasil. Analisar como os diversos sujeitos se influenciam e transformam as realidades nas quais se inserem é nosso desafio ao olhar para a vida desses padres e religiosos que marcaram, cada qual a seu modo, mas todos movidos pelo mesmo amor cristão, nossa trajetória social. Os acontecimentos específicos que fundamentam o alvorecer da Igreja uberabense como a construção da primeira ermida no começo do século XIX confundem-se com o processo de povoação desta cidade; bem como o desenvolvimento da Igreja com a fundação de um bispado e a chegada de D. Eduardo, nosso primeiro bispo, coincide com a expansão econômica e política de Uberaba. É preciso, assim, compreender que o exercício de lembrança da vida de homens piedosos como a de Pe. Alaor, servem, para além de exemplo de uma vida dedicada a Deus e à Igreja, como instrumento de compreensão de nossa fé, de nossa Igreja e de nossa cidade.

Antes de assumir a administração do Curato da Sé – denominação que então se usava para se referir à Catedral –, Pe. Alaor Porfírio destacou-se no auxílio prestado em Patos de Minas na condição de coadjutor de Mons. Manoel Fleury Curado. Foi então convidado pelo Vigário Capitular da Diocese, Cônego José João Perna, para assumir a Catedral de Uberaba o que acontece por provisão do bispo uberabense D. Frei Luiz Maria de Santana em 17 de dezembro de 1929. É preciso pontuar que foi durante o mesmo ano de 1929 que a quebra da bolsa de Nova York impôs uma gravíssima crise econômica no Brasil, gerando como consequência a falência de muitos, o encarecimento geral dos produtos, a carestia de alimentos e um desemprego acentuado. A atuação caridosa por parte de Pe. Alaor, num período que a circunscrição eclesiástica da Catedral abrangia as capelas de Santa Terezinha, São Sebastião (em Itiguapira), N. Sra. Da Conceição (na Baixa) e São Sebastião (em Ponte Alta), foram certamente decisivas, e sua capacidade para arrecadar a excepcional quantia de quatrocentos contos de réis num momento de crise e dificuldades para o início da reforma na catedral que, segundo Pe. Prata, em seu livro Memória da Arquidiocese de Uberaba, de acordo com “testemunhas da época, era ‘o maior pardieiro da cidade’. O reboco caia das paredes, as colunas de madeira, como também as grades e o soalho, tudo estava roído pelos cupins”. Deste modo, o cumprimento de seus deveres sacerdotais num momento de acentuada crise e a capacidade de apesar disso alcançar resultados extraordinários são dignos de nota.

Permaneceu como cura da Catedral de Uberaba até o dia 10 de maio de 1934 sendo então substituído interinamente pelo cônego Joaquim Tiago dos Santos. Seguiu então para Uberlândia, onde em 1935, por conta de seu envolvimento político, foi vítima de evento assim descrito por inquérito policial: “os comunistas prenderam-no, certa noite, despindo-o completamente e pixando-lhe o corpo, o amarraram em praça pública, para escárnio e desprestígio da Igreja Católica” demonstrando assim o clima de tensão política que se vivia na época entre forças políticas antagônicas e o inevitável envolvimento da Igreja em ambos os lados desse enfrentamento. Finalmente, Pe. Alaor Porfírio retirou-se definitivamente na cidade de Araxá a partir de 1936.

Por Vitor Lacerda

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