A Epístola de São Judas

Caros internautas e leitores do Jornal Metropolitano: começaremos a reflexão sobre um dos menores textos do Novo Testamento. A epístola de São Judas se apresenta com os caracteres próprios do gênero, ou seja, um remetente (v.1a), um endereço-destinatário de cunho universal (v. 1b), uma saudação inicial (v.2) e uma doxologia final (vv. 25-26). É ainda caracterizada pela ausência do que é próprio do gênero de carta, isto é, conotações pessoais, especialmente na conclusão, menção de algum companheiro na missão, ou elenco de algumas pessoas conhecidas ou fatos concretos de contato com comunidades. É uma epístola muito breve, não consistindo nem mesmo em divisão de capítulos. Na Epístola de São Judas, a divisão se dá apenas por versículos. Seria muito mais um bilhete universal, enviado em circunstâncias específicas e com uma finalidade precisa.

 Autoria:

O autor da Epístola de Judas é apresentado como “Judas, servo de Jesus Cristo, irmão de Tiago” (Jd 1). Quem seria este Judas? O povo de Israel tinha uma certa predileção pelo nome Judas, originário de Judá, um dos doze filhos de Jacó, do qual viria o Messias prometido pelos profetas. Judá era, portanto, considerada a tribo messiânica e, por isto, os hebreus passaram a ser chamados de Judeus, os praticantes do judaísmo. No NT aparecem seis pessoas com o nome de Judas.

A autoria poderia ser sobre dois destes “Judas”:

  1. a) Judas, um dos Doze, filho de Tiago, citado em Lc 6,16 e At 1,13, que poderia ser o mesmo que o Judas Tadeu de Mc 3,18 e Mt 10,3 ou ainda o Judas de Jo 14,11. Mas as tentativas de fazer deste Judas o apóstolo, um “irmão do Senhor”, seria exigir demais da genealogia.
  2. b) Judas, irmão de Tiago, presente numa lista de quatro irmãos do Senhor, em Mt 13,55 e Mc 6,3. Estes “irmãos” de Jesus seriam Judas, Tiago, José e Simão. A tradição apresenta Tiago, irmão do Senhor, que se tornou o chefe da Igreja de Jerusalém. Seria compreensível este Judas se apresentar como irmão de Tiago, bispo de Jerusalém, gozando da autoridade que este chefe da Igreja de Jerusalém gozava e, muito provavelmente, após a morte de Tiago nos anos 60, ter sido este seu irmão a ocupar a posição de autoridade frente aos cristãos da Igreja-Mãe. Não é o Tiago, irmão de João, filhos de Zebedeu.

Tudo levaria a aceitar este irmão de Tiago, Judas, como o autor da Epístola. Contudo, as mesmas objeções levantadas sobre a Epístola de Tiago e da 2ª Pedro servem para o texto de Judas. Não apenas a linguagem da epístola não sugeriria um galileu, não versado no grego e de cultura erudita rudimentar, mas o próprio texto indica uma autoria posterior à morte dos apóstolos. O v. 3 usa uma expressão sobre a “combaterdes pela fé, uma vez por todas confiada aos santos”, o que sugere o fim da revelação que, na teologia, afirma que “ela se encerrou com a morte do último apóstolo”. Ou seja, o texto mostra a revelação da fé conclusa, “uma vez por todas” e que esta “foi confiada aos santos”, expressão dada aos apóstolos. Importante recordar que não se trata de uma Carta Paulina, mas sim uma Epístola Católica.

Na mesma linha segue o v. 17: “Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras de antemão preditas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Este versículo só é compreendido se for após a morte dos apóstolos, o que vem confirmado pelo v.18: “eles vos diziam”, conjugado no imperfeito. Isto colabora com a tese de que a Epístola não pode ser fruto de um Apóstolo, de um dos Doze. Mas também a mesma referência se aplica a Judas, irmão de Tiago, irmão de Jesus, pois estes viveram contemporaneamente aos Apóstolos. Ainda mais, a ausência da referência a Jesus de Nazaré não deixa de ser problemática quando se considera um parente próximo de Jesus, também vindo da cidade de Nazaré.

A maioria dos exegetas e comentadores bíblicos concordam que a Epístola de São Judas deve ser um caso de pseudoepígrafe, escrita por um discípulo de Judas e atribuída ao peso da autoridade, seja apostólica, seja da Igreja de Nazaré, formada pelos membros familiares de Jesus Cristo, que gozavam de grande autoridade em Jerusalém. O autor seria um cristão desejoso de defender a mensagem apostólica de interpretações arbitrárias e incentivar os cristãos neste combate de defesa da fé cristã. Ele teria usado o nome de Judas, aludindo aos grandes personagens bíblicos do NT.

Em nosso próximo artigo, veremos as questões de data, destinatários, gênero literário e objetivo desta Carta Católica de Judas, tão singular e complexa. Desejo a todos uma santa e frutuosa Quaresma.

Padre Marcelo Lázaro Pinto

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© Copyright Arquidiocese de Uberaba. Feito com por
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