Fonte da fé

A fé parece ser inerente à vida das pessoas. Mas dizemos que ela é um dom divino, que ultrapassa a simples iniciativa pessoal. Na verdade, a fé é muito mais do que crer, porque até os demônios acreditam (Tg 2,19). É a certeza daquilo que ainda se espera, ou a demonstração de realidades que não se veem (cf. Hb 11,1). Ela envolve a certeza e a convicção, e está alicerçada na esperança.

A origem mesma da fé, como um mistério, está enraizada na Santíssima Trindade, no Deus uno e trino e nas Palavras de Jesus Cristo. Significa que a Sagrada Escritura é fonte cristalina para a fé cristã, porque são palavras que apontam para Deus e levam o crente a um encontro pessoal com o Senhor. O que se exige é a abertura de coração para acolher o anúncio como “grão de mostarda” (Lc 17,6).

A falta de fé desagrada a Deus, porque Jesus chegou a dizer: “Por que tanto medo, homens de pouca fé?” (Mt 8,26). Em outro momento da Sagrada Escritura se diz: “Ora, sem a fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima deve crer que ele existe e recompensa os que o procuram” (Hb 11,6). A fé faz a vida das pessoas ser sempre transformada para realizar o bem.

Na raiz da fé está a sabedoria divina, proclamada com muita evidência no Livro dos Provérbios. Essa sabedoria é o próprio Cristo, o Verbo que se fez carne para cumprir uma missão de salvação na terra. Com isto sentimos a profunda sintonia existente entre o Antigo e o Novo Testamento, porque o Deus de Israel é o mesmo Deus de Jesus Cristo, anunciado no passado e tornado realidade no presente.

A fé só tem sentido quando é transformada em obras, em gestos de fraternidade e de serviço aos irmãos mais necessitados. A Palavra de Deus é clara, quando diz que “A fé, sem a prática, é morta” (Tg 2,26). Isto significa que, ao lado da fé, como claridade de sua função, está a caridade, que gera esperança. São as chamadas virtudes teologais, essenciais para a vivência e a prática cristã.

A Festa da Santíssima Trindade, com a presença do Espírito Santo, é reveladora do mistério de um Deus que se manifesta no Pai, no Filho Jesus e no Espírito Santo. De forma mais sutil já acontecia com os patriarcas Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, os profetas, os reis e todo o povo do passado. Torna-se mais evidente com os apóstolos e com toda a histórica caminhada da Igreja.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

Santíssima Trindade / Fonte: Academia de Liturgia São Gregório Magno

 

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Pentecostes

As Festas Litúrgicas se repetem a cada ano. Não é diferente com a de Pentecostes, sempre no domingo imediato à Ascensão do Senhor. Entendemos esse dia como a realização da promessa do Senhor Jesus que, ao voltar ao Pai, encaminha para a terra o Espírito Santo, Espírito Paráclito, Espírito da verdade, para continuar a tarefa salvadora, guiando e santificando a caminhada das comunidades.

No Antigo Testamento há o momento do sopro de Deus, dando ao homem, modelado do barro da terra, o hálito da vida, tornando-o “ser vivente” (Gn 2,7). Nas aparições aos apóstolos, após desejar-lhes a paz e de soprar sobre eles, Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). Daí começa a missão da Igreja e os apóstolos se sentiram enviados para proclamar o sentido da vida.

Estamos em outros tempos, mas o dinamismo do Espírito Santo continua nos desafios da modernidade. Continua sendo luz e caminho no sofrimento do povo. Nos chamados “becos sem saída”, no meio de confusões e desesperos, normalmente os limites humanos se esgotam e as pessoas ficam sem força. O importante é não perder o foco do Espírito, que abre caminhos quando menos se espera.

O Brasil do momento está visualizando uma Nação difícil, que parece caminhar para tempos sombrios e de futuro ameaçador da esperança. O descrédito na instituição está crescendo, e com possibilidade até de uma “convulsão nacional”. Muitos fatos veem, infelizmente, acenando para isso. Falta credibilidade em tudo, dando chance para o crescimento do fosso elástico entre ricos e pobres.

Tivemos os primeiros meses do ano de 2019 com muitas marcas negativas, muitas ameaças à vida, fruto de práticas injustas e irresponsáveis. Sem uma atenção mais votada para o Espírito de Deus, a tendência é continuar de mal a pior. Torna-se impossível conseguir vida feliz sem a recuperação de valores que foram deixados de lado, causando vazio e insegurança em meio a forças contrárias.

A Palavra inspirada de Deus, e confirmada no dia de Pentecostes, precisa sair do papel e fazer acontecer, na realidade atual, uma prática que consiga cessar a violência, o ódio, o abuso e a corrupção moral, social e política. As ameaças sofridas pela população brasileira, que acontecem em todas as realidades da cultura, revelam distanciamento e não seguimento dos princípios divinos.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

Maino Pentecostés. Museo del Prado.

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Comunicação social

Na Solenidade da Ascensão do Senhor, nesse retorno de Jesus à Casa do Pai, quando sela definitivamente a Aliança que Deus fez com Abraão, identificada na perfeita comunicação do divino com o humano, celebramos o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Neste ano de 2019, o tema proposto pelo Papa Francisco diz: “Somos membros uns dos outros” (Ef 4,25), e devemos nos comunicar.

Falar de comunicação sugere relacionamento, convivência, diálogo e unidade. Por isto celebramos também a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Neste ano o tema é: “Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16,18-20). Em todas estas coisas nós vemos, perfeitamente, a vida e as atitudes de Jesus. Nele podemos encontrar os meios para realizar uma prática de unidade saudável.

A vida de Jesus, mesmo falando do tempo de sua infância e adolescência, foi marcada por intensa comunicação. Sua forma de proceder, de intimidade com o Pai e relacionamento com a realidade comunitária, são todos fatos que influenciavam a prática de vida das pessoas. Criou comunicação com o grupo dos apóstolos e conseguiu atrair multidões para experimentar e saborear do seu convívio.

Jesus formou comunicadores da Palavra de vida. Mais vida do que propriamente palavras, porque o testemunho arrasta com muito mais eficiência. A comunicação feita pelos apóstolos revelava convicção e autoridade, porque o Espírito de Deus estava com eles e os credenciava na missão. Hoje somos herdeiros dessa riqueza bimilenar, cuja força comunicativa continua com seu total vigor.

A sadia comunicação favorece e amplia a compreensão dos fatos que nos acompanham na história. Sendo “membros uns dos outros”, podemos dizer que o isolamento dificulta a comunicação e não permite a construção de vida comunitária sadia, e nem individual melhor. Há necessidade de investimento numa verdadeira educação, e não o contrário, para ajudar a cultura da comunicação.

A Ascensão do Senhor, que referencia o Dia Mundial das Comunicações Sociais, é a celebração solene da elevação da nossa humanidade, do poder de comunicar e de se realizar dignamente na vida. A presença do Espírito Santo é a continuação fiel da comunicação de Deus com seu povo. Ele é guia da comunicação e inspirador de propostas sadias para uma vida também sadia.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Presença na ausência

Parece um contraditório, mas não o é. Ao ressuscitar, Jesus continuou marcando presença na vida das primeiras comunidades cristãs, de forma misteriosa, aparecendo em diversas ocasiões. Um morto que continua vivo naqueles que O encontravam nos impactos de sua presença reveladora da “vida que vence a morte”. Este é o caminho de fé das pessoas que acolhem a Palavra do Evangelho.

Antes da Ascensão, durante quarenta dias, Jesus foi se revelando e provando para as pessoas com quem conviva a sua nova condição de vida, agora ressuscitado. Além de ser um fato inusitado, Ele ainda dizia: “Eu e Pai somos um” (Jo 10,30). É o mistério da ação reveladora da presença, também do Pai, no encontro com os primeiros cristãos, unindo as realidades do céu e da terra.

Revelando a presença do Pai, Jesus anuncia ainda a vinda do Espírito Santo, que aconteceu no dia de Pentecostes, cinquenta dias depois do Domingo da Ressurreição. Com esses fatos, a visão trinitária apresentada pela Sagrada Escritura, se trona realidade. O Pai é apresentado como Criador; o Filho, Jesus Cristo, como Salvador; e o Espírito Santo, como guia e santificador.

Estamos distantes por mais de dois mil anos da realidade vivida pelos primeiros cristãos. Todo ano, principalmente no período da Páscoa, atualizamos nossa memória ao proclamar Jesus Cristo como Deus e homem, ressuscitado e presente na vida e caminhada das comunidades cristãs. Essa presença dá sentido e conforto para os desanimados, mas confiantes na esperança das promessas divinas.

Falar de “presença na ausência” implica novidade, novo céu, nova terra, e nova Jerusalém como cidade eterna, imagem do paraíso, mas tudo em conformidade com a presença salvadora de Jesus Cristo. Passou o Antigo Testamento, mas a história do povo de Deus continua. As dificuldades encontradas e enfrentadas são inerentes no itinerário comunitário da vida das pessoas.

Somos agora o atual povo de Deus, e temos sempre que nos perguntar sobre a nossa identidade na vida cristã. Acontece um novo pentecostes, com marcas comunitárias, porque as inspirações divinas estão presentes e perpassam pelas diversas situações do cotidiano. O importante é a consciência de responsabilidade que atinge a todas as pessoas, para construir um mundo de vida nova.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Critério de ação

As pessoas humanas são as construtoras dos ambientes de convivência. Com muita sabedoria e capacidade, conseguem criar as bases de sustentação para a vida, seja humana, como também animal e vegetal. Atualmente esse caminho de construção conta com o avanço da tecnologia em alta escala, podendo contribuir, de forma impressionante e saudável, com uma realidade confortável.

Em um olhar mais bíblico, a ressurreição de Jesus Cristo possibilitou aos apóstolos realizar determinados critérios de ação. Convenceram-se do compromisso que o Mestre lhes tinha confiado. Eles deveriam anunciar, com testemunho pessoal, a Palavra de um Deus vivo e presente na comunidade dos primeiros cristãos. E foram testemunhas oculares das aparições de Jesus ressuscitado.

Outro critério de ação dos apóstolos, e dos cristãos de hoje, está firmado no amor com que são assumidos os trabalhos para o bem das pessoas. Isto constituiu a prática de Jesus, incutida na vida de seus seguidores, que deve prosseguir na história das pessoas. A vivência do amor tem como exigência fundamental a realização da justiça, fortalecida pela caridade e os bons propósitos.

Na construção de um Brasil melhor, e isso é possível devido à sua potencialidade, necessitamos de um itinerário marcado pelos critérios éticos da responsabilidade. Mesmo estando conscientes da existência de uma cultura econômica de concentração, é fundamental proclamar a possibilidade de uma história diferente, de mais partilha e diminuição da grande distância entre os ricos e os pobres.

Jesus veio proclamar uma realidade nova, falando de “novo céu e nova terra”. É como a recriação de uma nação diferente, onde cada pessoa humana é valorizada na sua dignidade. Mas isso não está acontecendo, porque vemos tantas pessoas vitimadas pelo progresso, que deveria dar mais condições de vida digna para os cidadãos. É o caso dos desastres de Mariana e Brumadinho, da Vale.

Os sofrimentos de Jesus Cristo, acontecidos principalmente na realidade da Paixão e vivenciados na Semana Santa, continuam presentes na vida de muita gente dos novos tempos. Sofrimentos que atingem comunidades inteiras, deixando a marca da indignação, porque, em muitos casos, são frutos de administração irresponsável, sem critério de ação que levasse em conta o direito das pessoas.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Pastor e ovelhas

A ideia do pastoreio acompanha a história do povo de Deus. Jesus usa a imagem do pastor e das ovelhas quando fala do Reino de Deus. Ele faz comparações tiradas do mundo rural e agrário para explicar, de forma simples, a sua proposta de ação. Olha para o campo como ambiente de trabalho, de cuidado com a obra da criação e espaço onde as pessoas colocam em ação seus próprios dons.

Para o bom andamento das coisas, é fundamental que o pastor tenha uma identidade exemplar e de testemunho autêntico de vida. Só assim vai conseguir atrair as ovelhas para o seu rebanho e elas vão segui-lo. Ele não vai atrás tocando as ovelhas, mas à frente, e elas o acompanham para onde for. Não bastam as palavras, porque são os exemplos que conseguem arrastar e convencer.

Essa dinâmica usada por Jesus deve ser aplicada também na sociedade geral. Ela toca o mundo da administração, seja pública como eclesial. Presenciamos más administrações nas diversas realidades da cultura moderna. Existe até uma impressão ruim levando-nos a pensar que administrar mal é cultural e não tem como ser diferente. Temos que nos convencer que não pode ser verdade.

Jesus, como Bom Pastor, veio mudar o cenário do mundo, quando Ele fala da responsabilidade de quem administra. Se sua prática não estiver montada na justiça e na honestidade, como “carros chefes” da ação, as consequências não serão positivas. Certamente haverá privilégios para alguém ou para pequeno grupo, e sofrimento para a maioria dos atingidos por essa administração.

A harmonia na administração torna-se saudável quando o administrador também participa de alguma forma das condições dos administrados. Os privilégios dos pastores, dos políticos e dos diversos administradores, causam insatisfação e revolta nas ovelhas. Essa situação é muito grave no Brasil, porque os privilégios são tão alarmantes que causam indignação na população.

Interessante que as ovelhas escutam a voz do pastor. É a partir daí que elas passam a segui-lo, porque ficam convencidas da necessidade de sua autoridade. Mas o pastor também tem grande responsabilidade em conhecer, acolher, cuidar e ajudar as ovelhas nas suas necessidades. Esse é o verdadeiro papel de todos aqueles que estão munidos de autoridade em uma Nação.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Partilhar a refeição

A palavra “partilha” está relacionada com o sentimento de identificação existente entre duas ou mais pessoas. É sentimento porque supõe iniciativa de dentro para fora. Constitui um caminho contrário daqueles que têm atitudes egoístas e querem tudo para si mesmos. Não conseguem enxergar as necessidades principalmente prementes dos outros e acabam não partilhando o que é possível.

Muitas negociações e iniciativas positivas, para o bem ou para o mal, acontecem nos momentos de refeição, em volta de uma mesa. Foi o que aconteceu com Jesus. Estando Ele com os apóstolos para uma refeição, na partilha do pão e do vinho, Judas Iscariotes é identificado como um traidor. Jesus disse: “Aquele a quem eu der um pedaço de pão passado no molho” (Jo 13,26), vai me trair.

No período dos quarenta dias pascais, tempo em que Jesus se manifesta e confirma para os discípulos a sua ressurreição, em vários momentos aconteceu o gesto da partilha. É o caso da pesca milagrosa (Jo 21,1-19), onde se realiza também uma refeição e, em volta da mesa, Jesus convoca o pescador Pedro para partilhar seus dons e assumir a tarefa de apascentar o rebanho do Senhor.

Existe muita gente que passa fome nas diversas nações do mundo. Não podemos simplesmente dizer que é por falta de alimento. A terra é muito generosa em todos os lugares, como um verdadeiro dom de Deus. Basta que haja incentivo e oportunidade para as pessoas plantarem, que os frutos aparecem abundantemente. Talvez falte uma globalização de partilha da refeição!

O anúncio de Jesus Cristo dava prioridade para a dignidade das pessoas. Ao falar de fraternidade, de acolhida, de comunidade, Jesus estava falando de partilha. As primeiras comunidades cristãs entenderam perfeitamente sua proposta. Distribuíam entre todos os bens que tinham (At 2,42-47), e ninguém passava necessidade. Na partilha fraterna, o pouco se torna muito e supre as necessidades.

Para não ser interpretado como um fantasma ou uma ilusão, Jesus ressuscitado comia com os discípulos, confirmando para eles que estava vivo e presente no meio deles. Ele tinha um gesto claro de partilha e desejo de que todos pudessem viver com dignidade. O acúmulo desnecessário e egoísta impede que a partilha aconteça e, facilmente, provoca atitudes de injustiça e gera fome.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Atitudes de Tomé

A fé é uma realidade interessante e comprometedora na vida das pessoas. Não deixa de ser uma experiência concreta e existencial na história de quem acredita na dimensão sobrenatural. Além da renúncia de critérios meramente fruto de vontade pessoal, significa também entrega a princípios que estão fora de conceitos formulados pela mente humana e pelos caprichos do indivíduo.

O Evangelho de João cita o caso de Tomé, um dos apóstolos do Senhor que, numa primeira constatação, não conseguiu entender essa realidade própria de fé, quando lhe foi anunciado que Jesus tinha ressuscitado. Não conseguiu acreditar no testemunho dado pelos discípulos, precisou ver e tocar nas feridas para crer porque exigiu uma constatação concreta e palpável (Cf. Jo 20,19-31).

Não sei se as pessoas de hoje estão certas em imaginar a existência de uma cultura identificada como descrente, sem objetivos claros e também ofuscada em relação a uma fé verdadeira. A impressão é de que a população caminha meio perdida, muito desconfiada, com medo e privada de uma esperança sadia. Muita gente, mesmo tendo de tudo, não se sente realizada e feliz.

Nesse tempo em que é celebrada a Festa da Páscoa do Senhor, as atitudes de descrença praticadas por Tomé não têm mais sentido. A história da vida cristã confirma a força salvadora de Jesus Cristo. Ele não é um Deus morto, incapaz de construir vida nova. Os apóstolos, inclusive Tomé, confirmam a autenticidade dessa plenitude eterna, que perpassa por todos os tempos e espaço.

A história da vida humana de Jesus na terra veio inaugurar definitivamente a chegada dos “últimos tempos”, mesmo que isso não seja ainda a sua plenitude. Não há como imaginar o seu fim, o que chamam de “fim do mundo”, mas que está nas mãos de Deus. Cada pessoa começa e termina sua missão na terra, mas os tempos permanecem ainda e as gerações continuam se multiplicando.

A fé significa que a pessoa consegue acreditar em Deus sem tê-Lo visto. Isto é diferente daquela teoria do “positivismo”, que confirma uma fé somente diante do que se vê e é possível de ser palpado. Tomé disse que não acreditaria que Jesus tinha ressuscitado sem ver suas feridas. Mas Jesus aparece e lhe diz: “Bem-aventurados os que não viram, e creram” (Jo 20,29).

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

Caravaggio – The Incredulity of Saint Thomas

 

 

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Sinal de Vida

As celebrações da Semana Santa, na história da Igreja, têm como objetivo preparar os cristãos para valorizar a riqueza da ressurreição e o sentido cristão da Páscoa do Senhor. A Páscoa é um ponto de chegada, mas também o começo de uma nova dimensão de vida centrada na Pessoa de Jesus Cristo ressuscitado. Ele partilha com as pessoas a vida e lhes dá sentido para enfrentar os problemas.

A fé, como dom de Deus, vem da ressurreição. Ela é sinal de vida e habilita as pessoas para não cair no desânimo e nem na doença do século, a depressão. Acreditar em Deus significa abertura para o encontro e o relacionamento com o outro. Foi o que aconteceu com os apóstolos depois da ressurreição. Eles tiveram força e coragem para enfrentar o difícil trabalho missionário do tempo.

Na Paixão de Cristo existem muitos sinais de vida. Temos o sepulcro vazio, os panos dobrados, a ação de Maria Madalena, a presença de Pedro e João etc. Tudo tem sentido para quem se abriu para o contexto da fé. A ação de Deus na terra acontece através de sinais. Cristo foi o maior deles, porque Ele se apresenta como Homem-Deus, sintetizando em si o sentido dos demais sinais.

Dois verbos, ver e crer, são significativos no entendimento da fé. Para quem consegue vivenciar os ensinamentos de Palavra de Deus, acredita sem precisar ver. Para os descrentes, como Natanael, Jesus diz: “Vem e vê” (Jo 1,46). Além da Sagrada Escritura e do testemunho dos apóstolos, a fé no Cristo ressuscitado supõe prática de amor, do reconhecimento de que Deus é misericordioso.

Podemos dizer que ter fé madura, sem preconceitos, é sinal de vida. Quanto a isso, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate”, fala da santidade que vem da fé, mas que pode ser prejudicada por duas ideologias do inicio do cristianismo, mas presentes de forma sutil nos dias de hoje, o gnosticismo e o pelagianismo, que não valorizam Cristo como principal fonte de fé.

A ressurreição é vida, aqui e agora, intimidade com Cristo e preocupação com as coisas do alto (cf. Col 3,2), mais do que com realidades apenas terrenas. Não significa alienação e nem intimismo, mas abertura para um estilo de vida pautado no testemunho de ação como fermento, sal e luz na prática cristã. Isso envolve a comunidade e expressa o sentido de família e de relacionamentos.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

 

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Ramos de vida

A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos, quando Jesus Cristo, num gesto de humildade e enfrentamento, entra em Jerusalém, montado num jumento. Ele é acolhido pelos presentes, com ramos nas mãos, e abre o caminho de sua própria condenação, que culmina com sua morte na cruz. Novos tempos começam a fazer parte da história e da vida dos que acreditam Nele.

Além da expressão e da prática de humildade de Jesus, Ele cumpriu uma missão projetada pelo Pai como gesto de obediência, sem olhar para o passado, mas confiante no que estava para vir no futuro. A morte consciente e responsável é desabrochar de vida nova, a passagem do que era corruptível para uma situação e vida de incorruptibilidade, no dizer do apóstolo Paulo (I Cor 15,53).

A morte de Cristo na cruz tem um significado de grande envergadura, porque foi precedida por uma importante trajetória de conduta construída no amor, na doação, no despojamento e na fidelidade ao projeto do Pai. Podemos até concluir que, na ausência dessas prerrogativas essenciais no currículo da vida de uma pessoa, a sua morte termina no sofrimento e no vazio existencial.

Todo cenário apresentado durante a Semana Santa deve ser visto como motivador de fé. O ator principal das cenas é Jesus Cristo, Deus encarnado e feito homem, unindo humanidade e divindade com um objetivo de salvação. A Ressurreição foi o marco referencial da fé das pessoas tocadas pelos sentimentos divinos. São presenciadas cenas de doação, de humildade, mas também de violência e morte.

O destino do povo de Deus e da humanidade passa pela via da cruz, do sofrimento e do mistério benevolente do Senhor. Essa realidade deve tocar no coração e na mente das pessoas e levá-las ao reconhecimento do plano de Deus, isto é, o sofrimento assumido com consciência para gestar vida nova. A Páscoa é consequência de atitudes conscientes de doação, mesmo com a via do sofrimento.

Aquele que no Domingo de Ramos entra triunfante em Jerusalém, mas com aparência de homem simples do povo, é o mesmo que mete medo nas autoridades constituídas de seu tempo. Ele aparece com uma postura de quem serve e mostra, com isso, o critério fundamental da vida cristã. No dizer da Sagrada Escritura, Ele veio para servir e não para ser servido (Cf. Mt 20,28).

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

 

 

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