Mãe das mães

No artigo desta semana, o arcebispo destaca que as mulheres constituem grande esperança para a história, mas necessitam de respeito e de serem valorizadas no mesmo nível dos homens.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Na data de oito de dezembro é celebrada, na Igreja, a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, da Mãe de Jesus, Mãe das mães e de todas as mulheres. Mas, infelizmente, está sendo muito comum ver pela mídia notícia do crescimento no número de feminicídio, que expressa claramente uma prática de machismo e de desrespeito contra as mulheres em todo o país.

Ao olhar para a Mãe de Jesus, a mente humana contempla uma mulher perfeita, imagem que deve ser seguida por todas as mulheres que compõem a população do país. Não só isto, mas também é importante ressaltar a contribuição feminina efetiva para o verdadeiro desenvolvimento da Nação. As mulheres não são apenas agentes do lar, mas pessoas que trabalham e constroem a vida.

O Advento, período que antecede o Natal, reflete o papel da mulher, Mãe de Jesus Cristo, como modelo de santidade. Sua vida não teve nada de extraordinário, mas realizava tudo com serenidade e determinação. Além de ser mãe e esposa, era preocupada com a educação do Filho e se doava por Ele, mesmo sabendo do que estava por acontecer em relação à Paixão e morte de Jesus.

As mulheres levam consigo muitos valores e virtudes que as ajudam na construção do bem da sociedade. Podemos dizer da fortaleza, firmeza nas decisões, dignidade, acolhimento, simplicidade, disponibilidade e a marca da sabedoria. Riquezas que identificam a vida da Mãe de Jesus Cristo, fazendo dela protótipo e modelo de simplicidade e testemunho de autenticidade no Reino de Deus.

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo” (Lc 1,28). Esta proclamação vem da boca do Anjo Gabriel, do enviado do Senhor, para dizer que Deus está presente na vida, não só da Mãe de Jesus, mas também em todas as mulheres virtuosas, capacitando-as para o desempenho de sua sublime missão. Tudo isto significa que as mulheres precisam ser respeitadas e elas mesmas se respeitarem.

O futuro da vida cristã foi depositado nas mãos de Maria, porque dela nasceria o Salvador da humanidade, Jesus Cristo. Hoje visualizamos perfeitamente a presença esmagadora das mulheres na vida das comunidades cristãs e em todos os setores da vida social. Elas constituem grande esperança para a história, mas necessitam de respeito e de serem valorizadas no mesmo nível dos homens.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Confiança e esperança

No artigo desta semana, o arcebispo destaca que  “o Papa Francisco convida os cristãos para celebrar um ‘Ano da Palavra de Deus’, criando momentos formativos sobre o Livro Sagrado e a descoberta do caminho que conduz à plenitude da esperança”.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

A confiança e a esperança são frutos de um comportamento sadio e responsável, porque as pessoas naturalmente já nascem constituídas de energias boas ou ruins. Então, é fundamental a escolha do formato que vai definir o tipo de conduta a ser praticada. Mas a sustentação não está na própria pessoa, e sim na certeza da presença fecunda de Deus na realização de seus atos.

As Celebrações do Tempo do Advento, em preparação para o Natal, são um despertar vigilante de esperança e confiança, que acontece no encontro pessoal com o Menino Jesus. Na verdade, é a Palavra divina que se faz carne, é Deus que se torna humano e vem morar entre os humanos para ajudá-los a sair do desânimo e do comodismo e poder sustentar sua capacidade de realizar vida nova.

A dignidade cristã e a confiança em Deus não podem ser diminuídas pelas crises nos setores da política, da economia ou da realidade social. Presenciamos uma profunda degradação na prática da justiça, uma preocupante desonestidade de muitas lideranças e exploração do povo em diversas circunstâncias. A sociedade marcada pelo consumismo precisa mudar de rumo para ajudar o povo.

As armas usadas na desova injusta de tanta gente precisam transformar-se em instrumentos de construção do bem. Na área rural devem ajudar no cultivo da terra para produzir alimento para a população. No âmbito das cidades, muito marcadas pela violência indiscriminada, é urgente trabalhar o sentido da paz, da fraternidade e do valor da vida humana, para despertar a esperança.

As relações praticadas na convivência interpessoal precisam ser humanizadas, superando todo espírito de desconfiança e de medo no seio da comunidade, aquilo que dificulta o clima da confiança e da esperança. A chegada de mais uma Festa natalina é espaço e tempo propícios para consolidar a confiança e a fé das pessoas em Deus. Isto significa que a esperança cristã é capaz de dar segurança.

O alvo da confiança e da esperança é o Reino de Deus. Os reinos da terra são vulneráveis e passam. Eles não dão sustentação, porque falta a fundamentação na Palavra de Deus. Por isto, o Papa Francisco convida os cristãos para celebrar um “Ano da Palavra de Deus”, criando momentos formativos sobre o Livro Sagrado e a descoberta do caminho que conduz à plenitude da esperança.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Modelo de liderança

No artigo desta semana, o arcebispo destaca que “o verdadeiro sentido da palavra rei é daquele que entrega sua vida para construir o bem dos outros e não faz prevalecer os seus próprios interesses”.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Popularmente falando, costumam dizer que o líder já “nasce pronto”. Talvez seja até verdade, mas ele pode ser preparado, principalmente diante da existência de disciplinas bem definidas na formação de lideranças. Suas virtudes devem ser para os outros, que o têm como líder, a serviço do bem das pessoas. A capacidade de liderar é um dom necessário para construir a vida comunitária.

O grande líder da humanidade foi Jesus Cristo. Na linha do reinado praticado pelos reis do Antigo Testamento, Ele exerceu uma liderança focada no encontro com as pessoas mais fragilizadas de seu tempo. Já nasceu identificado como rei de todos os tempos, para unificar aqueles que não conseguem viver o espírito de fraternidade tão necessário para a realização humana.

No final do Ano Litúrgico, na Celebração da Festa de Cristo Rei do Universo, a Igreja retoma o tema do reinado, mostrando que Jesus nasce como Rei e chega à plenitude da vida humana com o mesmo predicado. Ele construiu uma história muito afinada com a prática da verdade e da justiça. Isto parece não ser comum entre as lideranças que governam dentro do clima dos últimos tempos.

Jesus era um líder que incomodava muita gente, porque Ele não admitia atitudes injustas na convivência e na administração comunitária. Criticava os exploradores do povo, como aconteceu na cena relacionada aos vendilhões no Templo de Jerusalém (cf. Jo 2,14-15). Mostrava que o exercício da verdade constitui expressão de grandeza para as pessoas, e de liberdade interior.

O verdadeiro sentido da palavra rei é daquele que entrega sua vida para construir o bem dos outros e não faz prevalecer os seus próprios interesses. Ele pensa mais no coletivo do que em si mesmo. É uma realeza que não segue o modelo dos grandes impérios do passado, que tinham como prática explorar e massacrar a vida do povo mais simples e incapaz de reagir para se defender.

O Sacramento do Batismo introduz as pessoas no reinado de Jesus Cristo, concebido como princípio unificador de toda a humanidade e também como centro de onde emana a vida e a dignidade de todos os seus seguidores. O alvo principal do reinado de Jesus era a fidelidade na realização do projeto de Deus-Pai, projeto esse de comunhão e de reconciliação para a vida em fraternidade.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Dia Mundial dos Pobres

No artigo desta semana, o arcebispo destaca que “o olhar cristão de compaixão pelos pobres constitui um verdadeiro culto de adoração a Deus”.

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Existe uma realidade mundial preocupante, a riqueza de um lado e a pobreza crescente do outro. Não significa que a riqueza seja preocupante, mas sim a incapacidade de partilha de quem acumula de forma desnecessária, não conseguindo enxergar a necessidade do pobre. Sabemos que a pobreza é fruto do acúmulo de bens no bolso da minoria privilegiada e despreocupada com o bem comum.

Diante dessa realidade, o Papa Francisco teve a iniciativa de criar o Dia Mundial dos Pobres, porque isto faz parte essencial dos ensinamentos de Jesus através dos Evangelhos. A desigualdade social e econômica pode estar dentro do prisma da justiça e da paz. A voz do Papa é a voz da Igreja, preocupada com a vida e a dignidade de todas as pessoas, ricos e pobres, imagens e semelhanças de Deus.

A Igreja tem uma opção preferencial pelos pobres, não de assistencialismo caritativo, mas num processo de libertação integral, porque é direito de todos viverem bem. É uma questão de justiça, de superação de todos os tipos de discriminação e de desvalorização da pessoa humana. O olhar cristão de compaixão pelos pobres constitui um verdadeiro culto de adoração a Deus.

O pobre experimenta uma esperança perdida, mas fica sempre na expectativa de seu restabelecimento. A desigualdade vem ocasionando um considerável grupo de indigentes, de sofrimento e desestímulo de viver. Essa zona limite da vida humana faz com que a pessoa fique desprotegida e sem onde se apegar, a não ser lançar mão na fé e pedir a proteção divina. A violência não leva a nada.

Encontramos na bíblia o seguinte versículo: “Ouvimos dizer que entre vós há alguns que vivem à toa, muito ocupados em não fazer nada” (2 Ts 3,11). A pobreza é fruto da falta de trabalho, que é fonte de sustentação. É uma experiência dolorosa para quem vive motivado para trabalhar e tem necessidade de sustentar a família. É humilhante viver como parasita, dependendo de auxílio alheio.

A Celebração do Dia Mundial dos Pobres precisa sugerir iniciativas de solidariedade dentro da vida comunitária, com um olhar voltado para as pessoas carentes locais; refletir sobre as realidades de trabalho, emprego e questões sociais relativas às desigualdades; trabalhar, em sintonia com a Campanha da Fraternidade, as políticas públicas para que sejam amenizados os sofrimentos de tanta gente.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

Papa Francisco no almoço com os pobres na sala Paul VI, em 2018 (@L’Osservatore Romano)

 

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Comunidades Eclesiais de Base

Neste artigo, o arcebispo destaca o importante trabalho realizado pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

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Há uma dificuldade das pessoas perceberem as riquezas existentes na Igreja. Isso dificulta colocar em prática todo dinamismo edificador do Espírito Santo. Naturalmente aparecem determinados preconceitos difíceis de ser superados. É o que vem acontecendo em relação às Comunidades Eclesiais de Base, que são uma grande força evangelizadora e formadora de lideranças cristãs nas comunidades.

Fui indicado pelo Regional Leste 2 da CNBB como Bispo Referencial das CEBs, dentro da Comissão Episcopal para o Laicato. O primeiro ato foi participar, em Belo Horizonte, nos dias 2 e 3 de novembro, do momento de avaliação do 8º Encontro Mineiro de CEBs, acontecido na cidade de Ipanema, nos dias 19 a 21 de julho passado, com a presença aproximada de 600 delegados.

A avaliação, marcada por uma grande espiritualidade, tendo sua culminância com a Celebração Eucarística na Matriz da Paróquia São Tarcísio, Nova Cintra, em Belo Horizonte, foi muito rica. Tivemos a presença de delegados vindos de vinte Arquidioceses e Dioceses do Regional. Lamentamos a ausência de oito delas, porque ficam fora da unidade e da riqueza de estar somando forças no seu conjunto.

As Comunidades Eclesiais de Base têm um jeito próprio de ser Igreja. Elas fazem o esforço de viver como as comunidades dos primeiros cristãos, centradas na reflexão da Palavra de Deus, fazendo o exercício de ligar, na prática, a fé com a vida. Todos os delegados e as delegadas presentes se mostraram profundamente preocupados com o processo evangelizador da Igreja para os dias de hoje.

O tema do 8º Encontro Mineiro de CEBs foi: “Os desafios de uma Igreja em saída na construção da sociedade do bem viver e conviver”. O lema: “Criarei um novo céu e uma nova terra e nunca mais haverá choro ou clamor” (Is 65,17.19). Além da reflexão do lema e do tema com bastante profundidade, os participantes foram divididos em diversas oficinas com outros temas para partilha.

A cultura dos últimos tempos, muito rica nos seus diversos aspectos, sofre na pele o domínio do individualismo e o esvaziamento na vida comunitária. Isso atinge a vida familiar, o comprometimento pessoal e o exercício da fraternidade. Nessa problemática, as CEBs prestam um excelente serviço, convergindo as iniciativas inspiradas do Espírito Santo para construir o bem comum.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

Fonte: Leste 2

 

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Triunfo da vida

No artigo desta semana, o arcebispo destaca que o triunfo da vida tem sua total plenitude na promessa da ressurreição.

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Todas as pessoas percorrem um caminho profundamente marcado por alegrias e sofrimentos. Está nas alegrias o otimismo do seu momento, mas nas tristezas pode ocorrer o derramamento de lágrimas, os diversos sofrimentos e a baixa autoestima. Tudo isso revela o sentido mistérico da vida, até para concluir que ela não se satisfaz sozinha. Sua plenitude está fora de si mesma.

Jesus, em suas palavras, diz que Deus é o Deus da vida. Ele não se conforma com as práticas que conduzem à morte não natural. Essa realidade está presente no modelo de sociedade dos últimos séculos, que envolve situações de insustentabilidade, deixando a população com “antena ligada”, insegura e totalmente ferida na expectativa de um futuro de esperança promissora.

As pessoas têm uma identidade, uma tradição, sua cultura e religião. A prática constante da migração costuma desarticular essa riqueza e deixar que as pessoas fiquem desestabilizadas e feridas em sua dignidade. A confiança em Deus é o principal caminho de sustentação, porque Ele é o aliado do povo e é capaz de fazer gerar a vida mesmo num contexto de insegurança e morte.

O triunfo da vida tem sua total plenitude na promessa da ressurreição. A vida, no tempo presente, se arrasta no meio de sofrimento, de “gemidos”, traduzidos nas palavras de Paulo (cf. Rm 8,22). Isto está evidente na vida de quem sofre as catástrofes, como é o caso dos atingidos pelas barragens assassinas. Os sobreviventes remoem uma profunda amargura pela perda de entes queridos.

Terminado o Sínodo da Amazônia, depois de longos dias de intensa reflexão e estudo sobre o sentido da vida e da fé nesse espaço sagrado, fica agora a sensação de que a evangelização precisa reencontrar ali o seu real caminho missionário. Os diversos aspectos referentes ao religioso e ao ecológico estão totalmente interligados, fazendo parte da história dos moradores amazônicos.

Os itinerários da vida percorrem pistas divinas e são guiados pelo Espírito Santo de Deus-Pai. Desta mesma forma acontece nas comunidades cristãs comprometidas com os ensinamentos de Jesus Cristo, onde o enfoque da vida tem dimensão coletiva e comunitária. É justamente por isso que o Evangelho diz explicitamente que Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos (cf. Lc 20,38).

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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A face da Igreja

No artigo desta semana, o arcebispo destaca que a Igreja tem sua face assentada em quatro grandes pilares: na fé, na esperança, na caridade e na justiça.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Falar da face da Igreja significa olhar as dimensões de seu rosto, ou daquilo que a identifica como instituição sagrada e divina, com a cara de Jesus Cristo, exercendo a importante tarefa de evangelizar o povo de Deus. No dizer do Papa Francisco, a Igreja deve ser orante e testemunhal, aberta para o diálogo com o mundo, ao lado dos pobres, ser servidora, acolhedora e misericordiosa.

Uma das características essenciais da Igreja é sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus Cristo. Não é de se estranhar as diversas formas de perseguições que sofre. Esse foi o caminho do Mestre, a quem ela é chamada a seguir os passos. Os ataques à Igreja veem de dentro dela mesma, mas de pessoas que não vivem a dimensão eclesial da fé e as inspirações do Espírito Santo para os dias de hoje.

Creio não ser correto dizer que a Igreja está com a face ferida pelos atuais desacertos, porque suas bases são muito sólidas e bem construídas. Não é uma instituição qualquer e está enxertada na prática das bem-aventuranças para construir o Reino de Deus. Ela tem como base de sua ação evangelizadora a preocupação com a realidade do ser da pessoa humana como imagem de Deus.

Apesar de todos os percalços da história, seguindo os ensinamentos da Palavra de Deus, a Igreja está preocupada com a vida dos pobres, dos oprimidos, dos indefesos, dos marginalizados e dos aflitos em geral. Todos eles foram criados com dignidade e merecem respeito. Aliás, são chamados de “felizes” aqueles que a sociedade e a cultura moderna comumente desprezam.

É interessante observar o que está acontecendo nos últimos tempos: quem procura defender a dignidade do pobre é chamado de “comunista”. Pela bíblia sabemos que essa era a prática de Jesus de Nazaré. Então Ele tinha uma atitude comunista. Isso não significa que o Mestre era contra os ricos? Está evidente que não, mas era sim contra a exploração praticada impiedosamente contra o pobre.

A Igreja tem sua face assentada em quatro grandes pilares: na fé, na esperança, na caridade e na justiça. Vivenciar esses pilares significa mostrar a beleza do rosto de santidade e de perfeição no seguimento de Jesus Cristo. O cristão precisa estar sempre motivado para superar com determinação as iniquidades que o impedem de ser santo e de mostrar a figura real da Igreja como instrumento de Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Arrogância e humildade

No artigo desta semana, o arcebispo destaca ogesto de profunda humildade de Jesus ao lavar os pés dos discípulos enos convida a fazer o mesmo.

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Normalmente as pessoas tidas como arrogantes não passam de falsificadoras da própria identidade. Exigem, até de uma forma desonesta, o que elas mesmas não fazem, porque são incapazes de agir com humildade. Encontramos aí uma profunda mediocridade, a exigência de servilismo com aparência de escravidão. Muitos dos arrogantes não põem a mão no arado e exigem que outros o façam.

É constrangedor ver um cidadão ou um cristão arrogante, dono da verdade, que não abre espaço para o progresso de outros. Não é esse o tipo de vocação que agrada a Deus. Jesus, Mestre de todos, lava os pés dos discípulos e os convida a fazer o mesmo. É gesto de profunda humildade, que visualiza a abrangência da missão de quem é enviado para construir o Reino de Deus na comunidade.

A pior das arrogâncias é aquela que provoca a exploração do pobre, do órfão, da viúva e dos marginalizados em geral. Existe uma igualdade fundamental entre as pessoas, que desabona atitudes de imposição. É da profundidade desta dimensão que conseguimos entender a atitude de Jesus quando vai ao encontro fraterno dos mais sofridos e vulneráveis da sociedade de seu tempo.

As práticas de arrogância podem provocar muito sofrimento e lágrimas na vida das pessoas atingidas. Isto está muito em sintonia com a situação de poder e de fraqueza, que costuma ter uma trajetória carregada da prática de injustiça pelo fato de não respeitar a dignidade de quem vive situação de vulnerabilidade. Parece ser como conflito de poder, onde vence quem tem mais força.

Na vida de quem age com honestidade existe a consciência de que o respeito e a humildade são dimensões de valores essenciais, que não podem ser feridos por práticas arrogantes e de imposição. Jesus e os apóstolos legaram para a sociedade a importância do agir com humanidade. Para eles as pessoas, sem distinção nenhuma, são sujeitos de respeito e consideração, como imagem de Deus.

Ninguém é melhor do que ninguém. Dois jovens entram no templo para orar. Um arrogante e outro humilde. O arrogante se gaba de sua arrogância e seu gesto não foi agradável diante de Deus, porque fez uma prece falsa. Acabou ficando fora do projeto de Deus. O humilde teve postura diferente e sua prece foi acolhida. “Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18,14).

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Solidariedade e perseverança

No artigo desta semana, o arcebispo destaca a importância da solidariedade e da perseverança.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

A partir de um olhar atento sentimos que a solidariedade e a perseverança são mais fortes do que o egoísmo, o individualismo e a corrupção. A esperança é uma virtude que permeia o coração das pessoas, superando as situações de desespero e desânimo. É uma questão de confiança em Deus, de espiritualidade, que encontra suas raízes mais profundas na prática concreta da fé cristã.

As lutas e desafios que vão surgindo, normalmente, na vida das pessoas e das comunidades ficam muito mais amenos e suportáveis quando assumidos com atitudes determinadas, corajosas e perseverantes. O peso diminui com a participação solidária de quem é capaz de ajudar. Na solução de problemas, onde dois ou mais agem juntos as forças aumentam e a sobrecarga diminui.

A bíblia cita a batalha travada entre Israel e os amalecitas. Na colina, Moisés se sacrificava a favor dos israelitas, que venciam enquanto suas mãos ficavam estendidas. Não aguentando, venciam os amalecitas. O gesto solidário de Aarão e Ur fez com que Moisés perseverasse de mãos estendidas, fazendo vencer o povo de Deus. Com isto os amalecitas foram abatidos (Cf. Ex 17,8-13).

Numa cultura em que as pessoas vivem isoladas, fechadas em seu próprio mundo, as forças de conquista são muito reduzidas. A frase, “povo unido jamais será vencido”, é uma verdade. O Brasil poderia ser bem melhor se os cidadãos fossem unidos e “brigassem” juntos pela mesma causa. Existe uma carência de convergência na ação reivindicativa, falta solidariedade, e tudo fica como está.

As motivações que veem da fé e da Palavra de Deus abrem os corações herméticos, lançam as pessoas para uma verdadeira prática de solidariedade e conseguem transmitir segurança e firmeza na realização de boas obras. Nessa dimensão estão os pobres e os ricos, todos eles marcados pelo clima do individualismo e pela incapacidade de unir forças para construir um mundo melhor.

A bíblia apresenta a cena de um juiz injusto, que atende aos pedidos de uma viúva pobre, corajosa e perseverante nas suas súplicas. Na verdade, “o juiz injusto é vencido pela perseverança da viúva pobre” (Cf. Lc 18,1-8). Da parte do juiz faltou o dom da solidariedade, que só realizado porque houve resistência da viúva. A esperança é causadora de resistência e perseverança.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Sínodo da Amazônia

No artigo desta semana, o arcebispo destaca o Sínodo para a Amazônia.

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Preocupado com a evangelização e a ecologia integral, em 15 de outubro de 2017, o Papa Francisco convocou o Sínodo da Amazônia, ficando a data definida para 6 a 27 de outubro de 2019. É um Sínodo da Igreja, convidando as pessoas para um processo de conversão, vinculando a pastoral e a ecologia. É uma tarefa difícil, que atinge vários países, de fronteiras e de esquecidos.

A Amazônia legal é também lugar de possibilidades. É por isto que está sendo realizado esse Sínodo Especial, para repensar a evangelização, para saber interpretar as necessidades e a forma da Igreja atuar ali, com o auxílio da Palavra de Deus. No passado essa tarefa era assumida pelas Congregações Religiosas. Mas pela falta de vocações, isso não acontece mais, a não ser em poucos lugares.

No segundo livro dos Reis aparece a história de Naamã (II Rs 5,14-17), que ficou curado ao se banhar nas águas do rio Jordão. Além da cura física, Naamã passou por um processo de conversão, aquilo que é fundamental num processo de evangelização. O Sínodo da Amazônia tem este objetivo: refletir sobre a cura das pessoas pouco acolhidas e provocar seu caminho de conversão.

O alcance da Palavra de Deus supõe muita reflexão. Não é uma palavra fechada em si mesma, mas ela passa pela ação concreta dos missionários, no encontro com o espaço e com as pessoas que devem ser evangelizadas. Na Laudato Si o Papa Francisco mostra esses dois aspectos que estão sendo trabalhados nas reflexões do Sínodo, inclusive com a participação de evangelizadores evangélicos.

Pela extensão do território, o Brasil vive duas realidades bem definidas: o sul tem a marca do progresso, mas também cheio de problemas, que afetam a dignidade de grande parte de sua população; a região norte, que em grande parte, influenciada pelo desenvolvimento do sul, com riquezas naturais, mas também com o estigma da pobreza e do descarte. Isso preocupa os evangelizadores.

Existem preconceitos em relação a esse Sínodo, mas a Igreja está sempre aberta ao diálogo e para encontrar caminhos que ajudem os povos da Amazônia. É realmente um mundo ainda “sem lei”, com ingerência de exploradores, sem controle dos originários da floresta. A intenção do Papa Francisco é discutir caminhos que levem o povo a testemunhar a fé e viver sua dignidade como povo de Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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