Arrogância e humildade

No artigo desta semana, o arcebispo destaca ogesto de profunda humildade de Jesus ao lavar os pés dos discípulos enos convida a fazer o mesmo.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Normalmente as pessoas tidas como arrogantes não passam de falsificadoras da própria identidade. Exigem, até de uma forma desonesta, o que elas mesmas não fazem, porque são incapazes de agir com humildade. Encontramos aí uma profunda mediocridade, a exigência de servilismo com aparência de escravidão. Muitos dos arrogantes não põem a mão no arado e exigem que outros o façam.

É constrangedor ver um cidadão ou um cristão arrogante, dono da verdade, que não abre espaço para o progresso de outros. Não é esse o tipo de vocação que agrada a Deus. Jesus, Mestre de todos, lava os pés dos discípulos e os convida a fazer o mesmo. É gesto de profunda humildade, que visualiza a abrangência da missão de quem é enviado para construir o Reino de Deus na comunidade.

A pior das arrogâncias é aquela que provoca a exploração do pobre, do órfão, da viúva e dos marginalizados em geral. Existe uma igualdade fundamental entre as pessoas, que desabona atitudes de imposição. É da profundidade desta dimensão que conseguimos entender a atitude de Jesus quando vai ao encontro fraterno dos mais sofridos e vulneráveis da sociedade de seu tempo.

As práticas de arrogância podem provocar muito sofrimento e lágrimas na vida das pessoas atingidas. Isto está muito em sintonia com a situação de poder e de fraqueza, que costuma ter uma trajetória carregada da prática de injustiça pelo fato de não respeitar a dignidade de quem vive situação de vulnerabilidade. Parece ser como conflito de poder, onde vence quem tem mais força.

Na vida de quem age com honestidade existe a consciência de que o respeito e a humildade são dimensões de valores essenciais, que não podem ser feridos por práticas arrogantes e de imposição. Jesus e os apóstolos legaram para a sociedade a importância do agir com humanidade. Para eles as pessoas, sem distinção nenhuma, são sujeitos de respeito e consideração, como imagem de Deus.

Ninguém é melhor do que ninguém. Dois jovens entram no templo para orar. Um arrogante e outro humilde. O arrogante se gaba de sua arrogância e seu gesto não foi agradável diante de Deus, porque fez uma prece falsa. Acabou ficando fora do projeto de Deus. O humilde teve postura diferente e sua prece foi acolhida. “Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18,14).

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Solidariedade e perseverança

No artigo desta semana, o arcebispo destaca a importância da solidariedade e da perseverança.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

A partir de um olhar atento sentimos que a solidariedade e a perseverança são mais fortes do que o egoísmo, o individualismo e a corrupção. A esperança é uma virtude que permeia o coração das pessoas, superando as situações de desespero e desânimo. É uma questão de confiança em Deus, de espiritualidade, que encontra suas raízes mais profundas na prática concreta da fé cristã.

As lutas e desafios que vão surgindo, normalmente, na vida das pessoas e das comunidades ficam muito mais amenos e suportáveis quando assumidos com atitudes determinadas, corajosas e perseverantes. O peso diminui com a participação solidária de quem é capaz de ajudar. Na solução de problemas, onde dois ou mais agem juntos as forças aumentam e a sobrecarga diminui.

A bíblia cita a batalha travada entre Israel e os amalecitas. Na colina, Moisés se sacrificava a favor dos israelitas, que venciam enquanto suas mãos ficavam estendidas. Não aguentando, venciam os amalecitas. O gesto solidário de Aarão e Ur fez com que Moisés perseverasse de mãos estendidas, fazendo vencer o povo de Deus. Com isto os amalecitas foram abatidos (Cf. Ex 17,8-13).

Numa cultura em que as pessoas vivem isoladas, fechadas em seu próprio mundo, as forças de conquista são muito reduzidas. A frase, “povo unido jamais será vencido”, é uma verdade. O Brasil poderia ser bem melhor se os cidadãos fossem unidos e “brigassem” juntos pela mesma causa. Existe uma carência de convergência na ação reivindicativa, falta solidariedade, e tudo fica como está.

As motivações que veem da fé e da Palavra de Deus abrem os corações herméticos, lançam as pessoas para uma verdadeira prática de solidariedade e conseguem transmitir segurança e firmeza na realização de boas obras. Nessa dimensão estão os pobres e os ricos, todos eles marcados pelo clima do individualismo e pela incapacidade de unir forças para construir um mundo melhor.

A bíblia apresenta a cena de um juiz injusto, que atende aos pedidos de uma viúva pobre, corajosa e perseverante nas suas súplicas. Na verdade, “o juiz injusto é vencido pela perseverança da viúva pobre” (Cf. Lc 18,1-8). Da parte do juiz faltou o dom da solidariedade, que só realizado porque houve resistência da viúva. A esperança é causadora de resistência e perseverança.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

 

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Sínodo da Amazônia

No artigo desta semana, o arcebispo destaca o Sínodo para a Amazônia.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Preocupado com a evangelização e a ecologia integral, em 15 de outubro de 2017, o Papa Francisco convocou o Sínodo da Amazônia, ficando a data definida para 6 a 27 de outubro de 2019. É um Sínodo da Igreja, convidando as pessoas para um processo de conversão, vinculando a pastoral e a ecologia. É uma tarefa difícil, que atinge vários países, de fronteiras e de esquecidos.

A Amazônia legal é também lugar de possibilidades. É por isto que está sendo realizado esse Sínodo Especial, para repensar a evangelização, para saber interpretar as necessidades e a forma da Igreja atuar ali, com o auxílio da Palavra de Deus. No passado essa tarefa era assumida pelas Congregações Religiosas. Mas pela falta de vocações, isso não acontece mais, a não ser em poucos lugares.

No segundo livro dos Reis aparece a história de Naamã (II Rs 5,14-17), que ficou curado ao se banhar nas águas do rio Jordão. Além da cura física, Naamã passou por um processo de conversão, aquilo que é fundamental num processo de evangelização. O Sínodo da Amazônia tem este objetivo: refletir sobre a cura das pessoas pouco acolhidas e provocar seu caminho de conversão.

O alcance da Palavra de Deus supõe muita reflexão. Não é uma palavra fechada em si mesma, mas ela passa pela ação concreta dos missionários, no encontro com o espaço e com as pessoas que devem ser evangelizadas. Na Laudato Si o Papa Francisco mostra esses dois aspectos que estão sendo trabalhados nas reflexões do Sínodo, inclusive com a participação de evangelizadores evangélicos.

Pela extensão do território, o Brasil vive duas realidades bem definidas: o sul tem a marca do progresso, mas também cheio de problemas, que afetam a dignidade de grande parte de sua população; a região norte, que em grande parte, influenciada pelo desenvolvimento do sul, com riquezas naturais, mas também com o estigma da pobreza e do descarte. Isso preocupa os evangelizadores.

Existem preconceitos em relação a esse Sínodo, mas a Igreja está sempre aberta ao diálogo e para encontrar caminhos que ajudem os povos da Amazônia. É realmente um mundo ainda “sem lei”, com ingerência de exploradores, sem controle dos originários da floresta. A intenção do Papa Francisco é discutir caminhos que levem o povo a testemunhar a fé e viver sua dignidade como povo de Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Dons e talentos

No artigo desta semana, o arcebispo afirma que “ninguém é tão carente que não possa contribuir e nem tão farto que não necessite de receber”.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

A vida das pessoas é cheia de possibilidades e condições para construir comunitariamente os ambientes. Onde está o indivíduo e o exercício de sua missão, ali existe uma riqueza capaz de fazer o bem ou o mal. Ninguém é tão carente que não possa contribuir e nem tão farto que não necessite de receber. Todas as pessoas, ao nascer, já trazem naturalmente consigo dons e talentos.

A sociedade atual apresenta muitas coisas bonitas e grandes facilidades. Mas está também infestada de atos violentos e o exercício da maldade. Com o uso dos dons e dos talentos, muitos grupos com atos irresponsáveis se unem para maquinar atitudes destruidoras. Isto é sinal de que, por trás dos dons e talentos está a força da razão transformando os efeitos danosos em crime contra a vida.

Não ajuda deixar que a vida seja transformada, dominada e absorvida pela força do mal e da violência. Aquilo que deveria ser uma benção transforma-se em afronta ao dom da solidariedade e da justiça. O profeta Habacuc diz, com propriedade: “mas o justo viverá pela sua fidelidade” (Hb 2,4). Sinal de que a fidelidade deve ser relacionada com os dons e os talentos que trazemos da criação.

O mundo está contagiado por dificuldades e contradições, mas nos momentos mais difíceis dos limites humanos, Deus passa a ser o alvo de segurança. Acontece, automaticamente, uma expressão natural de fé, que vem do fundo do “coração” das pessoas, realidade que é transmitida de geração a geração. Isto nos leva a dizer que a fé é dom de Deus, presente também na vida dos céticos.

O exercício dos dons e dos talentos reforça e dá coragem para a pessoa vivenciar sua fé no Senhor. Com isto todo tipo de trabalho a realizar passa a ser feito num clima de maior confiança nas bençãos de Deus. Mesmo percebendo o declínio de sentimento real da presença de Deus na cultura moderna, é possível ser diferente e mais comprometido com as exigências do testemunho cristão.

A omissão é um gesto de traição aos dons e talentos que acompanham cada pessoa. É deixar de contribuir para com o bem comunitário. O Evangelho diz: “Somos simples servos e fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10), até para dizer que nenhuma pessoa é membro inútil, mesmo com uma fé do tamanho de uma semente de mostarda (cf. Lc 17,6). Fazer o bem faz bem para todos.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

São Jerônimo, grande “tradutor e exegeta das Sagradas Escrituras”, presbítero e doutor da Igreja.

 

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A raiz dos males

No artigo desta semana, o arcebispo fala a respeito da arrogância.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Muitos dos erros que as pessoas normalmente cometem têm sua origem nas atitudes de arrogância. Acontece que a arrogância não tem um futuro promissor, porque ela é acompanhada por uma prática de superficialidade. Faltam-lhe os fundamentos éticos e de respeito para com quem é, arbitrariamente, atingido. Na raiz de tudo está a esperteza e o exercício irresponsável de oprimir o outro.

Nas atitudes sem misericórdia de arrogância, onde está presente também a opressão e a impunidade, os outros devem ser eliminados, porque são incômodos. Falta o sentimento de que o mundo foi criado para dar possibilidade de vida para todas as pessoas, sejam ricas ou pobres. É como o direito constitucional de ir e vir, exceto nas impossibilidades físicas ou por decisão judicial.

O luxo e a riqueza adquiridos com exploração, sem um constrangimento ético ou moral, podem ser provocadores de arrogância e empobrecimento de muita gente. São práticas sem segurança, principalmente quando a confiança está em si e não em Deus. Em relação a tudo isso, o profeta Amós é muito incisivo quando diz: “Ai dos que se deitam em camas de marfim…” (Am 6,4s).

Para que o mal seja evitado, o modelo a ser seguido é o de Jesus Cristo, que usou palavras mostrando as raízes do mal e assumiu, conscientemente, a via da paixão e de sua morte na cruz. Só é possível construir a identidade das pessoas ensinando-as a viver o bem e evitar o mal, a ter a conduta de Deus. O apóstolo Paulo chama o amigo Timóteo de “homem de Deus” (I Tm 6,11).

Na parábola do homem rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) encontramos um abismo, um muro entre duas pessoas. Detectamos aí uma situação privilegiada do rico, que trata o outro num formato de arrogância, e um pobre considerado descartado da sociedade. O rico tem tudo, menos nome, portanto, sem identidade. O fim dos dois foi a morte, chegando a destinos eternos bem diferentes.

Os arrogantes são tão convencidos que dificilmente exercem a prática da compaixão. Eles se acham como pessoas realizadas e sem necessidade de ajudar os desfavorecidos da sociedade. Mas isto acontece sem se darem conta de que o acúmulo desvirtua o caminho das pessoas. Muitas delas vivem fartas de bens materiais e vazias em sua dimensão existencial. Na verdade, falta-lhes a dimensão divina.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Acolhimento

No artigo desta semana, o arcebispo afirma que “a acolhida tem uma dimensão divina e deve ser para todos, até mesmo aos filhos que abandonam a casa do pai e caem numa vida desregrada, mas voltam e são acolhidos novamente de forma fraterna no seio familiar.”

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Parece ser uma grande incongruência falar, nos dias de hoje, de acolhimento numa sociedade que perfuma exacerbadamente o vírus do individualismo. Há perda considerável do compromisso da ética de responsabilidade que uma pessoa deve ter pela outra. A conquista do verdadeiro sentido da vida não é uma realidade só pessoal, mas também tendo uma dimensão de vida comunitária.

A prática das atitudes de acolhida pode mudar a vida das pessoas, porque os gestos têm grande força transformadora. Eles não só conseguem unir, mas também levam à superação de muitas diferenças. Assim podemos até afirmar que, nos verdadeiros gestos de acolhida está presente algo próprio de arrependimento e a capacidade real do exercício do amor fraterno.

A palavra “acolhimento” tem uma dimensão fortemente comunitária, porque provoca união e fraternidade entre as pessoas. É impossível ser feliz aquele que vive dividido dentro de um grupo de indivíduos, dificultando o calor humano entre seus membros. Como muito bem diz o ditado popular: “Ninguém é uma ilha”, desconectado totalmente de uma verdadeira convivência de fraternidade.

O acolhimento, como dito acima, pode transformar a vida das pessoas. Foi justamente o que aconteceu com o apóstolo Paulo, antes defensor da Lei de Moisés, agora passou de perseguidor de Jesus Cristo e dos cristãos a ser anunciador coerente da Palavra de Deus (cf. I Tm 1,12-13). Quando somos motivados por fundamentos autênticos, podemos mudar totalmente de comportamento.

Na parábola da ovelha perdida, contada por Jesus, Ele age contra o acúmulo, porque deixa as noventa e nove de lado e vai à busca de uma só que havia desaparecido (Lc 15,3). A acolhida tem uma dimensão divina e deve ser para todos, até mesmo aos filhos que abandonam a casa do pai e caem numa vida desregrada, mas voltam e são acolhidos novamente de forma fraterna no seio familiar.

Dentro do contexto do acolhimento e da sensibilidade das pessoas, no tempo de convivência, podemos colocar a palavra solidariedade. Supõe verdadeira mudança de comportamento e de conduta, alteração de itinerário e construção de novos valores para a vida. É um processo que exige conversão, que acaba refletindo na vida da comunidade. Essa era a prática exigida por Jesus.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Superar diferenças

No artigo desta semana, o arcebispo afirma que a mudança de vida é um gesto de grandeza e de superação de diferenças. 

Ouça o artigo de Dom Paulo:

 

Em cada indivíduo existe uma força transformadora que nem é possível imaginar, principalmente a capacidade natural de relacionamento interpessoal. Mas há o perigo das atitudes desumanas quando a forma de agir não estiver pautada nos ensinamentos do Evangelho. A Palavra de Deus, quando colocada em prática com toda sua dimensão, facilita atitudes de respeito e convivência fraterna.

Não é fácil conhecer bem a vontade divina, porque nela existe uma sabedoria onipotente e inacessível. O ser humano é constituído de fraquezas e incapaz para conhecer com profundidade as riquezas da divindade. Necessita do dom da sabedoria que é dado pelo próprio Deus através do Espírito Santo. A mente humana deve acolher esse dom e deixar Deus agir no seu interior.

A mudança de vida é um gesto de grandeza e de superação de diferenças. O apóstolo Paulo, dentro da prisão, encontra o escravo Onésimo e o converte a Jesus Cristo. Depois escreve uma carta ao amigo Filêmon falando da real transformação ocorrida na vida de Onésimo e que o acolhesse novamente em sua casa, não mais como empregado ou escravo, mas como um irmão (Fm 9-17).

Não é tão fácil um bom relacionamento entre as pessoas, porque com facilidade são construídas barreiras que as distanciam umas das outras. Somente o evangelho é capaz de derrubar esses muros de separação e reconstruir a amizade e a boa convivência numa comunidade. Apoiados na Palavra de Deus e no processo de conversão, os inimigos podem voltar a viver como irmãos.

Quem quer realmente ter intimidade com Jesus Cristo e fazer um caminho de fraternidade na comunidade terá que fazer rupturas, ser capaz de enfrentar conflitos e pagar um custo bem alto. Dizemos da sabedoria com um verdadeiro itinerário de humildade, de desprendimento e conformidade da vida com os ensinamentos do Senhor. Ter consciência de que o caminho escolhido é o melhor.

Superar diferenças significa entender que o bem encontra barreiras em relação ao mal. Tanto um como o outro tem uma força gigante de destruição e de construção de muros, derrubando o sentido da fraternidade comunitária. A saída é saber viver de forma transparente e corajosa o projeto deixado por Jesus, superando todo tipo de escravidão, construindo novo modo de viver nos dias de hoje.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Partilhar a mesa

No artigo desta semana, o arcebispo afirma que “na expressão ‘partilhar a mesa’ deve estar contido o dom da solidariedade, da capacidade de reconhecer e colocar em prática a partilha das riquezas da natureza”.

Ouça o artigo de Dom Paulo:

Na dimensão da vida comunitária, principalmente entre os cristãos, as palavras e os gestos das pessoas precisam ter poder transformador na prática de partilha. Essa atitude está muito visível na forma de agir de Jesus. Suas palavras eram motivadoras de unidade e de convivência fraterna entre os apóstolos e os discípulos de seu tempo. As mesmas formas de agir devem acontecer hoje.

Convivemos com uma cultura destruidora da unidade, que incensa o egoísmo e exalta o individualismo, a ponto de colocar em risco a identidade de cada pessoa. Provoca uma prática que não ajuda na caminhada saudável da sociedade. Parece que as pessoas perdem a capacidade de partilhar as riquezas existenciais que cada uma tem recebidas do Criador como dom para sua vida.

Na expressão “partilhar a mesa” deve estar contido o dom da solidariedade, da capacidade de reconhecer e colocar em prática a partilha das riquezas da natureza. Tudo que exista deve estar em função do bem do ser humano. Isto significa que a pessoa humana está acima de qualquer outra criatura, inclusive dos animais, tão endeusados pela cultura dos últimos tempos.

As atitudes de Jesus influenciaram na mudança de postura do povo de seu tempo. Em tempo de mudança de época do terceiro milênio, muitas posturas são preocupantes para o hoje e para o futuro. Sem uma transformação corajosa e radical do aqui e agora, principalmente em relação à violência, à casa comum, ao egoísmo acumulador, teremos um futuro incerto e preocupante.

Diante da mesa de refeição, as pessoas devem se portar como iguais. Não é salutar uns ficarem apenas com as migalhas, ou com as sobras que caem dali. É um momento de unidade e não de grupos sociais separados com privilégios infecundos, de diferença entre ricos e pobres ou de classes sociais divergentes. Para Jesus, a mesa é espaço das pessoas vivenciarem a gratuidade fraterna.

A mesa não pode ser lugar de espertezas e conveniências egoístas. Os pobres também merecem o sustento necessário para sua sobrevivência. Torna-se até pertinente dizer que é na vida dos desqualificados da comunidade que acontece o banquete do Reino de Deus. Não fazem bem as divisões sociais, porque causam valores diferentes entre as pessoas e incentiva as desigualdades.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Adesão a Cristo

No último domingo de agosto, mês vocacional, a atenção da liturgia se volta para todas as pessoas que fizeram sua opção de seguir as exigências vindas do batismo. Estão aí também as crianças batizadas ainda nos primeiros dias de vida. Para elas, a opção vem do compromisso assumido pelos pais e padrinhos dentro da cerimônia do batismo, onde são feitos compromissos de educá-las na fé.

Fazer adesão por Jesus Cristo tem um significado bonito, mas segui-lo e ser fiel às propostas contidas nas suas palavras, é outra coisa, porque supõe ação concreta para a realização da justiça e do mandamento do amor. O seguimento do Mestre como se pode ver, não é tão fácil, principalmente diante de uma sociedade marcada por grandes conflitos e desafios surgidos no seu caminhar.

Não tão é fácil ser verdadeiro cristão diante do clima da nova cultura. A maldade, as inverdades e a prática da injustiça, como afrontas aos princípios de uma boa conduta, estão presentes em todos os lugares. No entanto, por aí está também o Reino de Deus como itinerário na busca da perfeição, onde as pessoas são chamadas a colocar em prática os compromissos assumidos no batismo.

Sabemos que o caminho e as exigências do Reino de Deus têm uma porta estreita, que supõe sacrifícios permanentes e ação corajosa na construção do bem da sociedade e de cada pessoa. A base principal está na vivência dos valores evangélicos. Isto significa capacidade de estabelecer relações fraternas, adequadas e justas com Deus, com as outras pessoas e consigo mesmo.

A meta da vida cristã é o banquete eterno no seio de Deus. A bíblia diz que “os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (Lc 13,30), para dizer que os projetos de Deus não são os mesmos que temos. Não podemos ficar perdidos em nossos próprios critérios e desconectados com a Palavra de Deus. Às vezes temos que abrir mão de certos apegos e acúmulos para ajudar na fraternidade.

Importa saber entender o valor educativo e pedagógico do sofrimento, no cotidiano, como processo de maturação na vida espiritual. Essa atitude condiz com a decisão de seguir Jesus Cristo para se chegar a um futuro de paz e de justiça. O convite para esse processo, dentro do mês vocacional, é feito a todas as pessoas, mesmo que isto custe enfrentar sofrimentos pela causa do Reino.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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Vida religiosa

No transcurso do mês de agosto e dentro da temática vocacional, damos evidência para a “vida religiosa”. Na Igreja Católica é chamado de “religioso” todo cristão que, na sua escolha vocacional, opta por pertencer a uma entidade, a um Instituto ou Congregação Religiosa. A vocação é fruto de uma escolha na vida com proposta de ação entendida como vontade divina.

A vida religiosa passa por momento de grandes desafios, principalmente aquelas mais antigas e tradicionais. Elas estão reféns da cultura do descartável, da instabilidade e mudanças galopantes, avessa às coisas tradicionais e estabilizadas. Valores que as sustentavam por séculos foram colocados no ostracismo. Vivem hoje num processo de esvaziamento e carência de novas vocações.

De um lado temos essas instituições citadas acima. Por outro lado surgem novas formas de vida cristã, novas experiências comunitárias de vida e com grande capacidade de atração. Surgem aqui e ali as chamadas “Novas Comunidades”, as de Vida e as de Aliança, com um jeito próprio de ser e de atuar na vida da Igreja. Podemos entender como novo modo de ação do Espírito Santo.

Em tudo isso é possível sentir os sinais de Deus na vida das Comunidades Cristãs. São símbolos e instrumentos da proximidade das pessoas com Deus. O Senhor se manifesta quando o vocacionado está disposto e aberto para cumprir com fidelidade sua missão. Fato que acontece em todas as Instituições Religiosas, mesmo com as dificuldades de umas e de outras para concretizar seus objetivos.

O clima secularista dos últimos tempos e as sombras vividas pela Igreja em relação existencial de alguns de seus membros no exercício de sua vocação tem preocupado o Papa Francisco. As cobranças quanto ao fiel testemunho de vida têm aumentado, e com plena razão, porque não podemos continuar com uma Igreja muito ferida na sua identidade pelos seus próprios membros.

Com as fortes exigências dos últimos séculos, é necessário inaugurar um novo tempo para a vida da Igreja. É fazer o que Jesus fez na cruz, vencendo a morte com a vida. Esta é a missão dos novos vocacionados, seja nas Instituições tradicionais, seja nas Novas Comunidades, revitalizando a conduta de seus membros para fazer da Igreja instrumento de evangelização para melhorar o mundo.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

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