Batismo de fogueira: tradição junina

  Dentro do vasto horizonte da prática religiosa católica existem alguns costumes e tradições que não foram instituídos pela Igreja hierárquica, mas surgiram espontânea e genuinamente da fé do povo. Essas práticas são conhecidas como piedade popular. Observe-se que “a piedade popular possui muitas boas ações que manifestam a fé do povo” (DAp) e que são recomendadas, desde que estejam em acordo com a lei da Igreja (SC).

  Desse modo, podemos caracterizar a prática dos batismos de fogueira na esteira dos festejos juninos, como uma autêntica piedade popular, juntamente com as folias de reis, os ternos de congado, as cavalhadas, as romarias e procissões etc.

   O batismo de fogueira surge historicamente como uma versão paralela do batismo na água, este último canônico e sacramental. Como só podiam (e só podem) ser padrinhos e madrinhas do batismo oficial pessoas que tivessem recebido todos os sacramentos da iniciação cristã (batismo, eucaristia e crisma) e fossem casadas na Igreja (matrimônio), isso restringia muito a lista daqueles que podiam ser escolhidos para essa função muito valorizada pelo povo em geral. Uma alternativa para isso, dentro da cultura do “jeitinho brasileiro”, foi criar o batismo de fogueira: depois de se batizar oficialmente na Igreja com os padrinhos, conforme mandava a lei canônica, os pais escolhiam outros padrinhos, por valor afetivo quando não de interesses, que por quaisquer motivos não estavam aptos a serem padrinhos “oficiais”, para que fossem padrinhos de fogueira.

   Esse batismo de fogueira não é sacramento nem confere os efeitos da graça próprios desse sacramento, mas está relacionado à fé popular nos santos juninos, de modo particular em São João Batista, e no interesse de se “aumentar” o número de padrinhos para além daquilo que é permitido pela burocracia eclesiástica.

   Como a Igreja se posiciona em relação a isso e a toda piedade popular de modo geral? Como mãe e mestra. Como mãe, entende as razões e os sentimentos de seus filhos e filhas e os valoriza. Como mestra, ensina e conscientiza sobre o valor e o lugar de cada prática e, quando necessário e carinhosamente, corrige e orienta.

Vitor Lacerda

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