Caminhada Sinodal: Um Exame de consciência em sintonia com o Domingo Laetare

“Alegra-te Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações” Isaías 66, 10-11.

Quem sofre, reconhece o próprio estado de sofrimento e, em grande parte dos casos, identifica com clareza, a origem desse padecimento, seja ele moral, psicológico ou físico. E quem faz sofrer, tem também essa mesma consciência, na maioria dos casos?

Iniciamos nossa reflexão por esse viés. Afinal, o que mais preocupa na conjuntura social e eclesial brasileira? A marca da compaixão do Cristo e as suas atitudes e gestos movidos pelo amor que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor. 13,7), não estariam fazendo falta e, ao mesmo tempo, originando o vazio que está sendo preenchido com violência, ignorância, intolerância, preconceito, impiedade, com destaque para a religiosidade descomprometida, inclusive, com os apelos dos que sofrem?

A Assembleia Eclesial da América Latina e o Caribe nos lançou um desafio, solicitando uma leitura crítica e autocritica de nossa realidade. Ressaltamos nesse contexto, alguns indicadores atuais importantes como o recrudescimento da adesão à fé católica, a diminuição do número de presbíteros e os ataques à Igreja Católica enquanto voz que se ergue para defender os direitos humanos, sobretudo a dignidade dos pobres e dos oprimidos.

Esses e outros indicadores da nossa conjuntura eclesial e social, conforme declarou Dom Vicente Ferreira, na live do dia 01 de dezembro2, sugerem que dentro de pouco tempo estaremos dominados por uma teocracia fundamentalista que, defendendo o neoliberalismo, jogará por terra todos os nossos sonhos de democracia e de participação efetiva na construção do bem comum, que garanta vida digna para todos.

Esse quadro introdutório relativo à Assembleia Eclesial, nos remete ao Sínodo 2021-2023. O tema do 16º Sínodo dos Bispos é: “Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão”. A leitura da realidade que fizemos mediante nossos esforços dedicados ao que nos solicitou a Assembleia Eclesial foi significativa em seu diagnóstico e em seu prognóstico. Ao avançarmos em direção ao novo desafio que nos está sendo proposto, no entanto, prosseguimos nos indagando sobre o que realmente está acontecendo no contexto do espaço dialógico que necessitamos constituir. Quem ouve, escuta e se mobiliza mais, se aproxima mais? E quem fala, se pronuncia e se conecta realmente com o necessário exame de consciência e com aqueles que estão na escuta?

Interessante tentarmos olhar para a nossa caminhada sinodal sob essa perspectiva: Leitura crítica e autocritica da realidade pessoal e comunitária é o que nos está sendo proposto novamente. O convite foi dirigido a católicos, cristãos e a outras denominações religiosas, incluindo-se, também, todos os segmentos de nossa sociedade que queiram participar. A partir de uma conversa franca sobre o contexto individual e coletivo que vivemos na Igreja e em relação à Igreja. Quanta riqueza de informação! Que valor pode ter essa contribuição para todos. Entretanto, sem o necessário exame de consciência para vermos o que nos falta cumprir e sem o indispensável olhar compassivo para a realidade dos que sofrem, como estabelecer o diálogo que viabiliza a escuta?

Nesse sentido, a Campanha da Fraternidade 2022 oferece elementos essenciais ao desenvolvimento da nossa caminhada sinodal. O tema da CF 2022 é “Fraternidade e Educação” e o seu objetivo geral: “promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”.  O Sínodo 2023 demanda um processo de Escuta fundado no diálogo e a Campanha da Fraternidade 2022 pede enfoque na educação para o diálogo.  Para vivermos em comunhão, para permitirmos a

participação de todos e para assumirmos juntos nossa missão de discípulos do Cristo, o primeiro passo a ser dado é dialogal.

A caminhada sinodal que encetamos, apresenta uma característica singular que a coloca em sintonia com a Quaresma: precisamos concentrar nossa atenção naquele que sofre em nosso meio, oculto nos interstícios das relações verticalizadas e opressoras. Trata-se de um período de reflexão em que ajustamos o passo com a trajetória de Cristo antes de sua Paixão, Morte e Ressurreição. Estamos, tanto na Quaresma quanto na caminhada sinodal, refletindo sobre nossas misérias pessoais e comunitárias, sobre nossos sofrimentos e os sofrimentos dos outros, sobre nossos deveres e nossas responsabilidades. De certa forma, somos instados ao sacrifício da participação que pede renúncia, esforços pessoais, reconhecimento de faltas, na forma de omissões e até mesmo de ações indevidas.

Participar do Tempo da Quaresma, portanto, nos cobra a mesma resposta que o Sínodo 2021-2023 e a Campanha da Fraternidade 2022 estão nos solicitando. Ambos pedem diálogo conosco mesmo, com o outro e com Deus. Solicitam que voltemos o olhar para dentro de nós, verificando em que ponto estamos falhando, o que podemos melhorar, dirigindo também o nosso olhar para o irmão que sofre ao nosso lado, para todos que sofrem no mundo. Acertaremos, assim, o passo, caminhando junto com Jesus e com nossos irmãos, na Quaresma e no percurso do Sínodo. Nossa ação, destarte, pode alcançar o nosso próximo e nossa oração, alcançar toda a humanidade. Pela graça de Deus, sempre podemos, em qualquer circunstância, realizar algo de bom, nos espelhando nas atitudes e nos gestos compassivos de Jesus.

A antecipação da alegria do Domingo Laetare, desta maneira, pode ocorrer sim, em nosso percurso quaresmal e sinodal, mediante a manifestação do nosso sentimento de gratidão por essa oportunidade única na história da Igreja: uma audição global em que todos são chamados a cooperar para a redefinição de rumos e de formas de ação que ajudem a Igreja no essencial cumprimento de seu principal papel: evangelizar, fazendo o bem para todos e todas, irmãos e irmãs do planeta.

Nossa resposta, mercê da misericórdia divina, pode nos augurar, então, essa indispensável reserva de alegria no contexto da árdua caminhada, a alegria de quem espera e confia na Ressurreição de Cristo, assim como no triunfo do Povo de Deus, que se ergue pela mão amorosa do Criador, ao atender ao seu chamado, disposto a trabalhar em sua messe, compadecendo-se uns dos outros.


Oswaldo Guayasamín – Cabeça de Napalm, 1976


Papa Francisco: sempre reiterado convite para vivermos a alegria de dialogar e de servir,em permanente caminhada sinodal.

2    Referência: depoimento de Dom Vicente de Paula Ferreira na live do dia 01 de dezembro de 2021, “Ecos da Assembleia Eclesial” Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kpBbAs7jC4g&t=369s>.

Rita De Blasiis

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