Campanha da Fraternidade: Educação pelo acolhimento

A Campanha da Fraternidade 2022 traz como tema Fraternidade e Educação e como lema: fala com sabedoria, e ensina com amor. Viver este amor que Deus nos propõe não é um processo fácil, pois exige um profundo compromisso com o que falamos e praticamos.

Se educar e reeducar-se, vivenciar e trocar valores é algo difícil de ser realizado em tempos “normais”, imaginemos em épocas “especiais” como esta em que estamos todos inseridos? Época de pandemia, de guerras, de fome, de miséria, de tensão e de intolerância e de tantas outras dores que acabam, de uma maneira ou de outra, afetando as relações entre as pessoas.

O tempo que estamos vivendo torna-se muito propício para nós revermos, “por dentro” (nossos valores pessoais) e “por fora” os valores dos outros e da sociedade como um todo. Juntando estas duas partes, nunca a necessidade do acolhimento ficou tão evidenciada. Como sabemos, esta é uma palavra cara ao Evangelho. Quem ama, acolhe; quem não acolhe, é porque não ama, por mais que haja discursos de justificativa de seus motivos. Viver a Fé pela acolhida implica sempre reeducar-se para tal. E o que estamos chamando de “quarentena”, na verdade pode resultar em um momento muito propício de revisão, retiro, reflexão, oração. Tempo de deserto interno, como o vivido por Jesus, e que em geral preparava sua missão. Uma Quaresma antecipada. Tanto para nos revermos individualmente, como para revermos a direção que a humanidade como um todo está tomando.

Qual humanidade emergirá desses tempos difíceis e inesperados? Que aprendizados poderão somar às relações humanas de pais, filhos, irmãos, professores, alunos, empresários, comerciantes, médicos, pacientes e tantos outros? Afinal, somos todos educadores.

É hora de a humanidade realizar o acolhimento não só com palavras, mas com atos, propostas, nova educação fundada em novos valores. Hora de revisitarmos o Sermão da Montanha e retirarmos dele os ensinamentos que nos humanizam no amor e acolhimento verdadeiro, sem as diferenças que tanto nos afastam ao invés de nos unir numa só Humanidade.

Frente a tantas inseguranças, o abandono e o desprezo parecem ser o caminho mais fácil para se conquistar as coisas terrestres. Isso nos remete à atitude do Pai, na Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32) que acolhe o filho que o abandonara em busca de uma vida fácil e descompromissada. No entanto, o pai, em sua divina misericórdia e amor incondicional por seu filho, o acolhe e reintegra seu filho no seu lugar de filho.

Quantas vezes, por intolerância ou ódio, por inveja ou ciúmes, “matamos” o outro com nossas atitudes, ou mesmo literalmente. Retrocedendo ao Antigo Testamento, quando Caim mata seu irmão Abel, comete um assassinato. Ao ser perguntado por Deus sobre “onde está seu irmão”(Gênesis 4:9-10) a resposta foi fria sob outra pergunta, esta, cruel: “Por acaso sou eu guarda de meu irmão? Aí não há arrependimento, mas fato consumado.

Numa época de revisão de valores espirituais e morais, como a quaresma, penitenciar-se é abrir-se à coragem de reconhecer o quanto às vezes nos falta em misericórdia. Uma “saída” é pensar: se Deus é Pai e ama a todos, eu me arrependo comigo mesmo e está tudo resolvido. Não é bem assim. O sentido de penitência, sob o sentimento de misericórdia, nos conduz ao outro e implica o abraço fraterno. Quantas vezes nos abraçamos em comemorações de festas, em resultado de conquistas e tudo mais? O abraço arrependido e misericordioso se concretiza no perdão oferecido.

Não foram poucos os homens que abandonaram o Pai, como Santo Agostinho, que depois viria a ser o grande defensor da Fé Cristã na era da Patrística, como bispo da Igreja. Numa vida juvenil desregrada, como valeram as orações de sua mãe, Santa Mônica. Uma das obras de Santo Agostinho, Confissões, é magistral nesse sentido – vale a pena conhecer, quem ainda não a leu. O mesmo aconteceu com São Paulo, que “abandonou” Deus por não conhecê-lo até o dia em que o “encontrou” pra valer em sua conversão. Fato memorável, numa queda de cavalo, quando perseguidor dos primeiros cristãos e a partir da qual Saulo assume o nome Paulo, posteriormente o apóstolo da Igreja em sua “militância” pela propagação do cristianismo.

Paulo assume a misericórdia e a prega sem tréguas desde então, como um dos primeiros “educadores” da Igreja, propagando a tríplice estratégia de um cristianismo radical não só em palavras, mas em atos: a fé, a esperança e a caridade. A caridade, modo como percebeu a concretização do amor a Deus e ao próximo. O amor misericordioso nos ensina que o ato de educar, de fato fiel a Deus, precisa ser regado de acolhimento, humildade e compaixão. Afinal, quem verdadeiramente educa, transforma vidas e acolhe o outro em suas dores e sofrimentos.

Maria Rita Nascimento Pereira
Coordenadora Arquidiocesana da Pastoral da Educação

 

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