Dom Eduardo Duarte Silva

A vida heroica de Dom Eduardo Duarte Silva é influenciada pelo destemido Pontificado de Leão XIII que foi o Papa que vislumbrou a necessidade de um “aggiornamento” na Igreja, convocando o Concílio Vaticano I (1869 – 1870); que sofreu a oposição à Igreja por parte das ideias liberais, mas só se armou da fé mediante a consagração do mundo ao Coração de Jesus a 11 de junho de 1899 e que idealizou a Romanização das dioceses do Brasil.

Dom Eduardo trabalhou pela Romanização nos mais difíceis primeiros anos da República Brasileira, proclamada por influência das ideias liberais.

A Romanização foi a reprogramação da Igreja no Brasil, alinhando-a ao regime republicano e objetivando:

a)- liberar-se totalmente das “amarras” herdadas do padroado imperial;

b)- restaurar a obediência do clero secular às orientações do bispado; e

c)- cuidar da formação do laicato católico pela Ação Católica, como meio de fazer decrescer a influência dos “coroneis” que praticamente mandavam nas romarias e nas festas litúrgicas, todas elas “refesteladas” laicamente.

O ciclo de romanização uberabense se encerrou com o pulso forte de Dom Alexandre, que foi nomeado para bispo, sob a condição de prometer ficar na diocese de Uberaba pelo menos 5 anos, sem pedir transferência. Ao que Dom Alexandre respondeu: “Ficarei sempre em Uberaba onde serei enterrado”. Hoje em 2013, os tempos são bem diferentes, graças à Romanização.

Sob o aspecto da Romanização das dioceses do Brasil, Dom Eduardo foi o maior Bispo de Uberaba. Tanto Dom Alexandre como Dom Eduardo venceram, mas pela irrestrita fidelidade à Igreja, sofreram muito.

Tendo voltado de Roma onde se doutorou, o Pe. Eduardo Duarte Silva, trabalhava em Desterro hoje Florianópolis. Desejou ir para o Rio, porque seu pai morrera e ele assumira o sustento da família. No Rio, pela influência de seu tio Diogo, a vida financeira de sua mãe seria mais tranquila. A transferência foi complicada. Pela pretensão de ir para o Rio, o bispo o obriga a prestar exames de Teologia, costume da época pelo qual o bispo obrigava o clero a estudar. No caso de Pe. Eduardo serviu de exemplo a todos os padres e de uma observação pessoal do bispo. Submete-se a exames. Mas fica magoado com seu bispo. Certo dia um franciscano lhe pergunta:

– Eduardo, há quanto tempo não conversa com o senhor bispo?

– Nunca mais, vou lá.

Mas, então foi lá. O bispo tranquilamente lhe pede para sentar-se e requerer ao Imperador o cargo de Cônego da Capela Imperial, cargo vago. Emprego muito cobiçado. Depois, Pe. Eduardo comentou não entender o motivo daquela grande humilhação e daquele grande favor por parte de seu bispo. Soube só mais tarde que o bispo queria provar o orgulho do doutorzinho de Roma. Nomeado para a Capela Imperial, cuida de sua mãe e presta bons serviços à Diocese. Capelão Imperial era cargo de notável reputação! Representando o senhor Internúncio Apostólico, foi o Cônego Eduardo quem entregou à Princesa Isabel, comenda do Papa Leão XIII, a Rosa de Ouro.

Em outra ocasião, o senhor Ministro do Imperador desejou um terreno dos carmelitas e o queria por medidas drásticas. A isso se opôs o Visitador de Ordens Religiosas, o cônego Eduardo que conseguiu convencer o Ministro procurar a interferência da Santa Sé. Vinda tal licença de Roma, o Cônego Eduardo intermediou a doação do fundo do Convento da Lapa para a construção da primeira maternidade do Rio de Janeiro. Por tal favor, o Imperador D. Pedro II o nomeia Conde, Comendador da Ordem de Cristo. (2 de maio de 1889)

Pela Proclamação da República, pensou-se em um Partido Católico. Por grave divergência entre dois jornais católicos o Partido Católico não foi fundado porque Jornal “Brasil Católico” contra o Partido Católico e Jornal “Cruzeiro” a favor. Cônego Eduardo, a favor, ficou desgastado. Estreita-se a amizade do Cônego Eduardo com Dom Joaquim Arcoverde, este já só eleito bispo de Goiás. Contrariado, Cônego Eduardo quis tirar férias em Roma. Por pura causalidade no mesmo navio estava o Cônego Eduardo com Dom Joaquim Arcoverde, ambos do “Cruzeiro” e Dom Antonio de Macedo Costa do “Brasil Católico”. Todos querendo falar com o Cardeal Rampola, Secretário de Leão XIII. Em Roma. Dom Arcoverde teria audiência papal onde se iria se desculpar por não poder aceitar sua nomeação para Bispo de Goiás. O Cônego queria a oportunidade de adentrar os Palácios do Vaticano em companhia de Dom Arcoverde. Em audiência papal, conseguida a dispensa para Dom Arcoverde. Com os assessores do Papa, já estava preparado um livro pontifical e uma cruz peitoral para Dom Arcoverde. Entretanto, de repente, Leão XIII, se dirige ao Cônego Eduardo:

– Quero que vos consagreis Bispo de Goiás, depois, vamos providenciar o que falta para isso.

– Mas Santo Padre, minha idosa mãe.

– Leve-a a Goiás.

– Ela não suporta a viagem Santidade! Muito doente.

– Nesse caso vá cada ano ao Rio para vê-la. Aqui está a cruz peitoral e o livro pontifical que lhe dou. E pode partir.

Dom Eduardo foi nomeado Bispo diretamente pelo Papa Leão XIII. Caso raro.

Na comemoração dos 25 anos de bispado de Dom Eduardo, Dom Arcoverde, então Arcebispo de Rio de Janeiro, veio a Uberaba, abrilhantando tais festejos. Foi lembrado como Leão XIII nomeou bispo a Dom Eduardo. À frente da catedral há placa comemorativa sobre tal festividade.

A Diocese inicial de Dom Eduardo, com sede em Goiás. abrangia aquele Estado e o Triângulo Mineiro. Com a falta de padres, as famílias dos coroneis mandavam nas Paróquias que se encontravam em completa desorganização. Sofreu muito. Pela proclamação da República com ideias liberais, um general confiscou o prédio do seminário de Goiás, sob pretexto de servir de Hospital Militar. Dom Eduardo comentava que a República foi proclamada sem nenhum militar ferido. Recorreu ao Presidente da República. Nada. Todo bispo pode residir em qualquer cidade de sua Diocese, portanto, toma a decisão de residir em Uberaba. Contrata várias tropas de burros: “Em 24 de junho, havendo já em várias tropas remetido toda a minha bagagem, a dos professores e seminaristas, parti de Goyaz e cheguei em Uberaba em 10 de agosto”. (“Passagens” Autobiografia, IPEHBC, série memória religiosa, UCG, Goiania, 2007, pg 145) e “O único edifício em condições de alojar o Seminário era o do Colégio Uberabense” (COUTINHO, 2000, p.51),

Em 1899, Dom Eduardo transformou o Seminário em o Colégio Diocesano do Sagrado Coração de Jesus, que em 1902 foi entregue aos educadores maristas que Dom Eduardo conseguiu em uma eventual passagem pela França.

Dom Eduardo constrói sua Catedral, nas Mercês, inaugurada a 27 de janeiro de 1907, gravando no frontispício da futura catedral, em Latim:

“DIVO. CORDI. JESU. POSUIT EDUARDUS EPISCOPUS GOYAS 1905”.

AO DIVINO CORAÇÃO DE JESUS, DEDICOU EDUARDO, BISPO DE GOIÁS 1905. O Sagrado Coração de Jesus é o Titular da Arquidiocese.

Pela Bula Papal “Goyaz Adamantina Brasilaina Republica”, o Papa São Pio X, cria a Diocese de Uberaba a 29 de setembro de 1907, desligando-a de Goiás.  A posse só foi possível a 24 de maio de 1908, 7 meses depois, por extravio postal do “Breve Apostólico Apostolatus Officium” de 8 de novembro de 1907, nomeando-o primeiro bispo de Uberaba.

Incentivou a criação da primeira Escola de Odontologia e Farmácia em Uberaba, extinta em 1934. Por falta de Grupos Escolares com a colaboração das Irmãs Dominicanas fundou, pelos bairros, Escolas Primárias onde se aprenda o catecismo também.

Dom Eduardo em suas andanças apostólicas amava conhecer a natureza. Em carta de 11 de agosto de 1911, D. Eduardo informava a um pesquisador de bócio, Dr. Laudelino, o que ele aprendera em Goiás: “… pernicioso inseto da ordem dos hemípteros a que aqui dão o nome de barbeiro ou vum-vum que segundo experiências do Dr. Chagas é o transmissor do bócio. Eu suponho ser o “cimex lectuarius” que é diferente do “cimex (pentatona ritupex)” que é o percevejo comum das camas. Aquele tem asas, este não… julgo que chamam-no “barbeiro”… vi por lá ( Goiás) papos de todos os feitios, uns em forma de uma grande moranga que da garganta desciam quase ao meio do peito. Os chamados de corda que são como uns pequenos coités dependurados em tendão e que descem até ao umbigo. Um desses tinha, como ouvi dizer, um sapateiro que o jogava às costas quando trabalhava em sua tenda”.

Bispo zeloso, formava comunidades religiosas em sedes de fazenda, onde passava dias entre batizados, casamentos, confissões e Missas. Um missionário.

Aprendia remédios caseiros com o povo simples para os receitar. Gostava de conversa popular. Com o povo das fazendas comia a taioba cozida, as saladas de serralha, transagem, berdoega e o broto de abóbora.

Andava muito a cavalo. Certa vez caiu do cavalo. Conseguiu aprender domar sua própria exclusiva montaria. Nunca mais caiu.

Em pesquisa de Dr. José Mendonça: “No Almanaque Uberabense de 1904, encontramos as seguintes informações sobre o antigo Palácio Episcopal: … Sua inauguração deu-se nos meados do ano de 1902 … aproximadamente Setenta contos de réis … concorreram: A Freguesia de Frutal, com 5 contos de réis, que foram gastos na aquisição do local; a Paróquia de Uberaba, com outros 5; a Mitra da Diocese com doze contos,… as demais Freguesias do Triângulo Mineiro, com dez contos de réis; o Esmo, Sr. Bispo n. Eduardo Duarte Silva, com 5 contos, provenientes de suas côngruas de Cônego da Capela Imperial …”.

O Palácio era ao lado da primeira catedral. Depois foi sede do Jornal Correio Católico. Prédio destruído na década de 1950.

Dom Eduardo organizou as romarias na cidade de Água Suja, (Romaria MG). Em 1908, paraninfou a primeira turma formada no Colégio Marista. Publicou 8 cartas pastorais. Ordenou 18 padres seculares e vários padres religiosos.

Dom Eduardo sofria de neurastenia crônica (cefaleia), conhecida popularmente como enxaqueca. Em crises, tinha que manter-se ao leito, até por uma semana. Depois de 27 anos como bispo de Uberaba, renuncia em março de 1923. Despede-se de seus diocesanos em Carta Pastoral de 1º de Agosto de 1923. Sai de Uberaba a 2 de setembro de 1923. Falece no Rio a 16 de outubro de 1924. A 11 de dezembro de 1983, transladados do Rio de Janeiro, seus restos mortais foram repousados na Catedral de Uberaba..

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