Frei Gabriel, o Irmão da confiante Providência As obras do Asilo Pio XII e do Hospital São Francisco de Assis

O Servo de Deus Frei Gabriel de Frazzanò (Arquivo PROCAMIG)

Caros leitores: paz e bem!

Iniciamos um novo ano e, costumeiramente, desejamos aos que nos cercam muitos votos de paz, saúde, felicidade dentre outros. É bem verdade que este ano se inicia com um pouco mais de esperança, mas ainda sim com sua porcentagem de mistérios e dúvidas. Contudo, não podemos nos deter às margens do caminho da vida. É preciso trilhar os caminhos da existência e do discipulado de Jesus, tanto pessoal como comunitariamente, ajudando aqueles que caminham conosco e permitindo-nos ser ajudados. Que este novo ano seja, de fato, um ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por falar em caminho, voltamos para prosseguir em nosso itinerário em busca de conhecer melhor a vida e a fama de santidade do Servo de Deus Frei Gabriel de Frazzanò, frade capuchinho, missionário italiano em nossas terras mineiras. Após um ano de artigos e partilhas, estamos lembrando o tempo em que viveu na cidade de Frutal, última etapa de sua vida e missão.

Não se consegue elencar com precisão a extensão e abrangência de todas as obras sociais e religiosas desempenhadas por Frei Gabriel, pois muitas já se perderam na passagem do tempo e outras, ele mesmo as quis bem escondidas, apenas reveladas para Deus e para seus beneficiados. A memória do povo guarda, porém, muitas lembranças de suas realizações e muitas de suas obras, hoje aumentadas ainda vivem para dar-lhe testemunho e renome. Quanto às demais obras, caritativas e humildes, só Deus as sabe e as guarda, e por certo já lhe retribuiu com a Vida Eterna.

Escreveu José Ingenieros: “As existências vegetativas não têm biografia: na história de sua sociedade, só vive o que deixa rastros nas coisas ou nos espíritos. A vida vale pelo uso que dela fazemos, pelas obras que realizamos” (O homem medíocre, p. 49, Ed. Spiker). Antigos companheiros seus de trabalho, frades e leigos, mostram-nos suas realizações e, como bênçãos do céu, continuam beneficiando a cidade de Frutal. Vejamos algumas e de maior vulto.

Numa ocasião em que estivemos em Frutal, ouvimos o depoimento de duas senhoras, auxiliadoras das obras sociais de Frei Gabriel. Trata-se da Dona Honória Furtado e Dona Altamira Queiroz Assunção. Algumas senhoras tentavam organizar a assistência social da Paróquia, mas encontravam dificuldades; faltava-lhes o apoio maior. Frei Gabriel apareceu como o “anjo da guarda”, incentivando e ajudando na fundação dessa assistência e tornou-se, ao correr dos anos, a alma do Asilo Pio XII. A fé do “Irmão de todos” era tamanha que as senhoras duvidaram por algum tempo que tudo ocorresse tão bem quando dispunham de apenas dezoito cruzeiros para começar!

Esse foi o início humilde do asilo. Além das duas senhoras, cujos nomes já atestamos, ainda havia as irmãs de sangue Aurora e Alice Brito. Ao longo do tempo, outras colaboradoras para tarefas ulteriores e outros benfeitores com dinheiro e materiais foram surgindo à medida que a nova realização se impunha. Os alicerces foram lançados no dia 26 de setembro de 1962, com a presença de Frei Gabriel. No Natal, a obra já era inaugurada com a bênção do vigário Frei Sante de Ália e, estando em pleno funcionamento, em 6 de janeiro de 1963 foi abençoada a Capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, dentro do recinto do Asilo.

A fundação tinha sido simples e rápida, dependendo daquele entusiasmo de início. O mais difícil viria depois. E como fazer com a manutenção e os cuidados com os velhinhos que iam chegando e ficando, pois encontraram ali o apoio material e o carinho cristão?

A manutenção da obra se concebe graças à disponibilidade ao serviço da caridade do Frei Gabriel, que então vivia para atender as necessidades da casa, auxiliado por seus amigos e pelas senhoras. Ninguém resistia ao “ataque” do frade quando mostrava seu próprio coração tão confiante no futuro. Pedia dinheiro e mantimentos, na cidade, na zona rural e até em outras paróquias, como Itapagipe, Ituiutaba, Canal de São Simão, Santa Vitória, Prata, em Lorena e outras cidades paulistas. Assim se configurava o frade esmoler pelos caminhos do Triângulo Mineiro, do Noroeste e Centro Paulista. Como outrora ele vira, ainda jovem no orfanato de Messina, na Itália, a figura do frade pedindo esmolas, agora ele assumia este serviço da humildade e da caridade pedindo não para si, mas para os que dependiam da assistência social.

Frei Gabriel ficou também conhecido no Brasil inteiro quando participou do programa de televisão do animador Flávio Cavalcanti, na extinta TV Tupi. Foi ao programa pedir por seus velhinhos e ele mesmo havia sido indicado para ganhar uma passagem para a Itália para visitar seus parentes. E conseguiu o que desejava!

O Asilo tornava-se “delícia” especial para ele nos dias das festas juninas. Organizava fogueiras, comidas e música, levando os velhinhos ao folguedo. E muitos dançavam, cantavam! Mas todos certamente se abriam num sorriso que havia muito tempo não desabrochava com tanta facilidade. O frade também cantava muito e, vendo os outros felizes, também ele gozava de verdadeira alegria.

No dia 13 de maio fazia-se a procissão de Nossa Senhora de Fátima, padroeira da Capela do Asilo, mas Frei Gabriel arrumava também um andor com a imagem de São Benedito, em homenagem aos negros escravizados no Brasil, fazendo memória no dia da Abolição da escravatura. Unia, em preces de louvores e liberdades, todos os filhos de Deus, iguais em dignidade.E assim o Asilo Pio XII continuou em pleno funcionamento e dando melhor assistência aos velhinhos internos. Frei Tiago Valenza e Frei Mauro Bazanni construíram novas e necessárias dependências.

No refeitório, existe uma foto do Frei Gabriel em que esboça um leve sorriso. E parece que ele, ali da parede, continua a proteger com seu olhar meigo as pessoas desvalidas que procuram horas de sossego no Asilo, no ocaso da existência de cada um. Os velhinhos o fitam saudosos e o chamam de “pai dos pobres” que agora é “anjo no céu”. “Pois eu estou no meio de vós, como um que serve” (Lc 22, 27).

Outro trabalho que, valentemente, começou foi o Hospital São Francisco e como Frei Gabriel lutou para manter também essa obra. Segundo consta dos Estatutos, a Sociedade Amigos do Hospital “São Francisco de Assis” de Frutal foi fundada em reunião realizada no salão paroquial da mesma cidade. Era o dia 20 de setembro de 1966. A reunião fez-se por iniciativa de Frei Gabriel, que ali lançou sua nova e profícua semente evangélica: uma instituição que cuidasse dos doentes pobres, embora aceitando ainda doentes que pudessem pagar ou, de qualquer forma, ajudar. É instituição filantrópica e religiosa, com administração própria, de finalidade não lucrativa e tem como objetivo a assistência médico-hospitalar gratuita aos indigentes. A entidade, então, se mantinha através de contribuições dos diversos sócios, verbas e ofertas várias. Houve de início a seguinte diretoria: Provedor, Vice-Provedor, Diretor Clínico, Vice-Diretor Clínico, Diretor Espiritual, Secretário, Tesoureiro e Mesários.

Essa obra grandiosa do humilde irmão capuchinho pode, talvez, parecer pequena demais e sem notoriedade, mas com os recursos do tempo e do ambiente, com farmácia, salas de operação, maternidade, berçário etc. foi o refúgio de muitos enfermos, alívio de muitos sofredores, espaço para se dar à luz e se confiar misericordiosamente ao retorno à casa de Deus.

Entretanto, como Frei Gabriel conseguiu manter por anos a fio essa Santa Casa? A resposta só pode ser: um milagre de amor e de confiança em Deus que nunca lhe faltou!

Pessoas amigas de Frei Gabriel muitas vezes emprestavam-lhe importâncias em dinheiro para que ele pudesse pagar as dívidas com prazo marcado. Depois, com o dinheiro conseguido nas colheitas dos mantimentos, ele cobria suas dívidas particulares. Estava sempre preocupado com essas dívidas, e não ocultava isso, seja em simples bate-papos, seja nas reuniões com os colaboradores. E nunca faltou ao Hospital durante sua vida o necessário para a sobrevivência.

O Hospital fica nas imediações do Asilo Pio XII e da Casa da Criança, em terreno doado pela Prefeitura. Dom Alexandre, Arcebispo de Uberaba, foi convidado para abençoar a pedra fundamental do Hospital. O Arcebispo perguntou a Frei Gabriel se ele tinha dinheiro para construir um hospital.

– Tenho 50 cruzeiros, foi a resposta.

E o Arcebispo ficou admirado. Mas Frei Gabriel acrescentou:

– A Providência Divina se encarregará da construção.

Depois da bênção, quando Dom Alexandre já ia embora, Frei Gabriel disse-lhe: – Daqui a seis meses o senhor será convidado para vir benzer todo o prédio.

E Dom Alexandre riu ao ver naquele rosto tanta coragem e tamanha segurança… Pois assim aconteceu.

Ficamos por aqui. Na próxima edição continuaremos, sempre no intuito de conhecer Frei Gabriel e ver que ele foi um homem de fé, corajoso e trabalhador. Como um consagrado a Deus, tudo fez em favor dos pobres, doentes, crianças e idosos. Que Deus abençoe a todos! Paz e Bem.

 

Frei Vicente da S. Pereira, OFMCap
Frei Glaicon G. Rosa, OFMCap

Frei Gabriel e internos em frente ao Asilo Pio XII (Arquivo PROCAMIG)

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© Copyright Arquidiocese de Uberaba. Feito com por
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