Mais uma vez, o tempo do Advento

   Celebrado na liturgia católica em quatro domingos antes do Natal, o Advento é o tempo de preparação para celebrar o Natal e começa quatro domingos antes da festa de Santo André, em 30 de dezembro. Assim, em toda contagem regressiva dos domingos contemplados, o Natal se insere na última das quatro semanas. A origem da palavra vem do latim: advenio, que significa “vir, chegar”, o que dá o tom de um tempo de espera do Salvador. Vale dizer que esta espera não se trata de uma atitude passiva de quem está parado num ponto à espera de um ônibus. Trazendo para o campo teológico, esta espera se transmuta em tese, pelo menos, em tempo de esperança.

   Afinal, emerge uma pergunta: esperança em quê?

   No site da Capela da Universidade de Viçosa-MG, a título de esmiuçar mais o significado deste tempo, lemos: “O Advento está dividido em duas partes: as primeiras duas semanas servem para meditar sobre a vinda do Senhor quando ocorrer o fim do mundo, enquanto as duas seguintes servem para refletir concretamente sobre o nascimento de Jesus e sua irrupção na história do homem no Natal”. (Disponível na rede, em link da UFV). Por questão de espaço, convido o leitor ou leitora a refletir comigo sobre o significado das duas últimas, em função da pergunta acima.

  Muitos ditados populares ao mesmo tempo que expressam o imaginário e a própria resistência de um povo, correm o risco de virar clichês, tendo em vista seu uso intensivo. Por exemplo, quando se afirma: “a esperança é a última que morre”! Abstraído do desgaste de tal ditado, sabemos que nosso povo brasileiro, de um modo ou de outro, carrega nos ombros uma esperança que torna “mais leve” seu fardo de sofrimento.

   Há que constatar que, nos últimos anos, o sofrimento de nosso povo não deu tréguas: pandemia, descaso, ódio, violência, assassinato de pobres, de povos originários, cientistas, feminicídio, fome, miséria extrema, destruição de nossa morada, a natureza de todos e o que ela disponibiliza, então, sobre uma destruição em escala nunca experimentada, desidratação absurda de políticas públicas, corrupção a olhos vistos e dissimulada, uso político da própria religião cristã… A lista é enorme! O Cristo que irá renascer no Natal é o mesmo, encarnado em sua “irrupção na história do homem”, o que celebramos mais diretamente nas duas últimas semanas do Advento.

   Entretanto, tornar a esperança mais leve apenas proclamando sua vinda, mas permanecendo alheio ao que acontece, nos sugere um modo tão somente passivo de sacramentar o próprio desespero, haurido do sofrimento humano. Não foi uma atitude passiva na missão profética de Isaías, ao proclamar: “Eu ouvi os clamores de meu povo” (Êxodo 3, 7-14), se esta voz que clamava no deserto não fosse resultado de um arregaçar de mangas em prol do trabalho incansável da salvação dos homens. Cristo continua sendo crucificado, morto e ressuscitado todo ano. Resta saber se permanecemos parados. No país há muito o que fazer doravante e sempre. Trata-se de um versículo veterotestamentário que já se tornou, inclusive, um documento eclesial do Episcopado Latino-americano, há algumas décadas, tão tensas e intensas como os dias de hoje. Um tempo para estarmos vigilantes, não de braços cruzados.

 Maria Rita Nascimento Pereira

Coordenadora da Pastoral da Educação

 

 

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