O Coração Imaculado de Maria

Ao nos depararmos com esse acontecimento, a consagração pelo Papa Francisco da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, o que nos ocorre? Realmente sabemos o que é o “Coração Imaculado de Maria”?

A formulação de um conceito nesse sentido, certamente, exige um aprofundamento no sentido bíblico-teológico, histórico e devocional. Demanda, outrossim, pesquisa no campo da mariologia, parte da teologia que estuda a figura, o mistério, a missão e o significado de Maria na história da salvação.

E pelo viés da piedade popular, como explicar o culto prestado ao Imaculado Coração de Maria? Onde iniciariamos nosso processo investigativo? Talvez, no relato tradicional da famosa pintura feita pelo Evangelista Lucas, o milagroso quadro de Nossa Senhora de Czestochowa que se encontra no Mosteiro de Jasna Góra na Polônia. Essa obra, de certa forma, nos reportaria aos primórdios do cristianismo e dentro desse contexto formativo do arcabouço da fé católica e sua liturgia, à configuração das tradições da religiosidade popular voltadas ao que se tornou, ao longo dos séculos,  o culto especial prestado à Virgem Maria.

A oração inscrita em um achado arqueológico de 1927, que remonta ao seculo III d.C. , um fragemento de papiro no qual se encontra a mais antiga oração conhecida, dirigida a Maria Santissima, também nos fornece pistas significativas. Sub tuum praesidium (Sob teu amparo) é o titulo dessa prece, expressada nos seguintes termos:

“Sob teu amparo nos acolhemos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as súplicas que te dirigimos, em nossas necessidades. Antes bem, livra-nos sermpre de todo o perigo, ó Virgem gloriosa e bendita”!

Vários elementos importantes sobressaem no contexto dessa prece: o primeiro deles é a referência à Maria como protetora, como aquela a quem se pode recorrer pedindo amparo. O segundo nos reporta à sua condição como Mãe de Deus (Theotókos), um dogma que seria proclamado no Concílio em Éfeso, em 431 d.C. Na frase seguinte, reafirma-se a possibilidade intercessora de Maria, a quem são dirigidas súplicas, dentre as quais destaca-se a que menciona, de certa maneira, a situação de risco vivida pelos cristãos envolvidos na missão evangelizadora da humanidade, nos primeiros séculos do cristianismo. “Livra-nos sempre de todo o perigo”, esse é um pedido que remete ao fato de que os primitivos cristãos eram violentamente perseguidos pela fé que professavam e pelo trabalho que realizavam no seio de uma sociedade cujas práticas e valores careciam fortemente da boa nova do Evangelho do Cristo, fundada essencialmente na misericórdia.

Por fim, a invocação “Ó Virgem gloriosa e bendita” nos reporta à qualificaçao que faziam esses primitivos cristãos, relativa à Mãe de Jesus, um claro reconhecimento de suas virtudes e da benignidade de Deus sobre ela.

Após esse período inicial da prática de devoção mariana, ao qual nos reportamos, mediante essa antiga prece e também o por meio do quadro pintado por São Lucas, retratando a Virgem Maria, escurecido em virtude das muitas velas acendidas em ambiente fechado, oculto das autoridades, nos ocorre uma questão relevante. Até os tempos atuais, como se configurou, se desenvolveu e se manteve a devoção à Nossa Senhora? Extensa gama de títulos pode ser elencada, associados às aparições marianas e ao fluxo da piedade popular com suas manifestações.

É nesse contexto diversificado, tão rico em espiritualidade, que distinguimos o  Imaculado Coração de Maria, uma invocação mariana e devoção católica, um culto pedido pelo Céu de modo expresso à Madre Virgínia Brites da Paixão, o qual ganhou grande e particular destaque com as aparições de Fátima.

Neste dia 25 de março,  em que se celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor, a consagração pelo Papa Francisco da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, é um acontecimento muito forte de um ponto de vista simbólico.

Ressaltamos nesse sentido, a manifestaçõo do arcebispo da diocese de Moscou e presidente da Conferência Episcopal da Federação Russa, Dom Paolo Pezzi, que assegurou à agência Sir ter acolhido com «grande alegria e gratidão a decisão do papa». Afirmou ele: «Fátima, pelo menos no que diz respeito à Igreja Católica, tem um vínculo especial com a Rússia e também com cada conflito que ocorre no mundo».[1]

Essa observação de Dom Paolo Pezzi nos propõe um desafio, desperta nossa atenção para um aspecto importante da devoção ao Imaculado Coraçao de Maria, aquele que diz respeito à sua natureza, à pureza que o distingue mesmo como Coração Imaculado, como modelo que se constitui, exemplo a ser seguido por todos e todas nós.  Sem traço de egoismo e absolutamente disposto a servir a Deus, o Imaculado Coração de Maria convoca a humanidade à compaixão mútua, à permanente convivência fraterna e solidária. E, por outro lado, como bem afirma o arcebispo da diocese de Moscou, coloca todos os conflitos do mundo no mesmo patamar, desde os pequenos, vividos nos ambientes domésticos, até os grandes, desenvolvidos mediante lutas por meio de armas.

O caráter translúcido do Imaculado Coração de Maria, por sua total ausência de egoísmo, permite que enxerguemos com clareza o que a graça de Deus pode operar em nossos corações. No exato âmbito de nossas limitações quando buscamos sinceramente, autêntica conversão, ou seja, a mudança de padrões de comportamento e de sentimentos, dos aspectos privilegiados pelas convenções mundanas competitivas naqueles que nos são apresentados por Nosso Senhor Jesus Cristo, fundados em espirito fraterno e solidário, no cuidado que deve distinguir a convivência entre os que se reconhecem irmãos, filhos de Deus, nosso Pai.

Como um cristal que permite a refração da luz, o Coração Imaculado de Maria Santissima, nos apresenta o espectro do amor divino pela humanidade, a graça que o preenche e que se reparte entre todos. O amor de Deus que se doa, que nos concede seu Filho Amado, Jesus Cristo que outorga sua própria vida para cumprir o plano salvífico do Pai, está presente no Imaculado Coração de Maria.

Por conseguinte, a reflexão do dia de hoje, realmente nos convoca a uma participação consciente do evento mundial que está ocorrendo, por iniciativa do Papa Francisco, mas, também nos pede, a permanente dedicação à devoçao que abraçamos por meio de nossas preces e atitudes cotidianas, em busca dessa possibilidade que a Maternidade Divina de Maria Santíssima, mercê da graça de Deus, nos concede.

Quão bela e abençoada aspiração, fundir o nosso coração no Imaclado Coração de Maria por meio de uma prática devocional que se manifeste através da ação fraterna constante, da busca de justiça e de paz no mundo, para todos, dedicando- se a esse mister também por meio da oração cotidiana!

Oxalá, nesse lindo e auspicioso dia da Anuciação do Senhor e da Consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, possamos participar desse momento tão importante para o mundo todo com consciênia de nossa responsabilidade nesse contexto. Renovem-se as esperanças, sim, e afirmem-se os comprometimentos de toda a cristandade, peçamos a Deus, com nossos corações irmanandos.

Rita De Blasiis

Olímpia, 25 de março de 2022.

[1] Disponivel em: https://www.cath.ch/newsf/la-consecration-au-coeur-immacule-de-marie-quest-ce-que-ca-signifie/

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© Copyright Arquidiocese de Uberaba. Feito com por
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