Pastoral da Comunicação, a Pastoral da Esperança

Entrevista com Dom Joaquim Mol, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB, concedida a Rita De Blasiis*

 

  1. A principal questão que gostaria de colocar é referente ao resultado, ao horizonte da esperança que se abre aqui, nesse 7º Encontro Nacional da Pascom. Nós temos, no Brasil, uma conjuntura complexa, sob certo ponto de vista, uma situação de risco, em vários aspectos. O risco da nossa democracia que amadureceu e, de repente, sofreu um golpe impactante, e nessa emergência toda, veio à tona uma realidade oculta do Brasil. Tanto do povo brasileiro quanto da própria Igreja. Esse sinal que a Pascom está constituindo aqui, é como se fosse um farol, não é? Tanto aponta onde está o porto seguro quanto propõe uma luz para o caminho. Gostaria que o senhor nos falasse sobre isso.

 

A Pastoral da Comunicação, por exatamente trabalhar a comunicação sob o ponto de vista da ação pastoral, que é a ação do pastor, que é a ação de quem cuida do outro – esse é o trabalho do pastor, cuidar do outro – ela é eminentemente uma pastoral de esperança porque o cuidado suscita, nas pessoas, o desejo de mais cuidado. Cuidado gera cuidado das pessoas, e então, a Pastoral da Comunicação, essencialmente, é da esperança, exatamente porque a esperança se concretiza em gestos concretos da comunicação.

A comunicação também tem um papel muito importante que é o de gerar redes. Não é possível, no mundo contemporâneo, a gente pensar comunicação fora do conceito e da prática de redes. E redes que são constitutivas de pessoas, mas, pessoas que colocam para fora o seu desejo de uma sociedade nova, de um mundo novo.

A Pastoral da Comunicação, então, como pastoral que cuida das pessoas, que alimenta a esperança das pessoas, gerando redes e fortalecendo redes – porque rede tem que ser cuidada, os laços, os nós das redes precisam ser cuidados permanentemente para não se soltarem, esgarçarem – ela contribui para a esperança de um Brasil novo. Nós, de fato, vivemos uma dificuldade muito grande no tempo presente porque instalou-se no Brasil, aquilo que estava não só escondido na realidade brasileira, mas, eu diria assim, escondido lá onde se escondem as piores coisas do ser humano. A morte, a violência, a exclusão do outro, a pobreza, a miséria, a fome, o descompromisso, o interesse particular acima do interesse coletivo, o desejo do autoritarismo, a descrença na participação popular, na participação de todos como cidadãos e sujeitos, que está preconizado na democracia.

Então, observe que essas coisas que emergiram são coisas da pior qualidade que se possa imaginar. Só que nós não nos deixamos abater. Ainda que isso venha – o que nós não desejamos, de forma alguma – piorar, nós vamos nos conservar firmes na esperança, exatamente porque pela comunicação nós conseguimos trazer para a nossa realidade, antecipar a promessa -o nosso Deus é o Deus da promessa – antecipar a realização da promessa de Deus no já da nossa história. Então, é isso que justifica a nossa alegria.

Observem o Papa Francisco. O Papa Francisco é um homem com muitas razões para viver entristecido, abatido, deprimido, quem sabe, perdendo o controle, nervoso, e é o homem do sorriso, da paz – da paz Interior. Por quê? Porquê ele está fincado na esperança de um mundo novo. Ele está fincado não só na esperança de um mundo novo, mas, o Papa Francisco está disponível para a construção do mundo novo. Porque tudo o que ele faz e tudo o que ele prega, tudo o que ele vive, está plantado já, frutificando no Evangelho de Jesus. Por isso ele fala de alegria do Evangelho. Nós não perdemos a nossa alegria que é a alegria do Evangelho, da paz interior que nos ajuda a transformar o mundo.

Então, eu desejo que de fato, a Arquidiocese de Uberaba, uma Arquidiocese grande, com um valor histórico muito importante, com contribuições importantes para o cenário nacional, desde, inclusive, antigos e bons bispos que passaram por lá -agora Dom Paulo – que essa Arquidiocese inteira seja envolvida pela comunicação do Evangelho, que isso vai trazer muita alegria ao coração de cada pessoa.

 

  1. Tive oportunidade de participar da Assembleia Eclesial da América Latina e o Caribe, criando um Fórum. Essa foi uma experiência interessante mediante a qual percebemos como impactou esse momento de pesquisa, na forma que eles fizeram. Foi uma prévia do Sínodo, esse mapeamento de ações pastorais, essa identificação de lideranças, porque quem correu atrás está engajado num processo de luta com um certo grau de consciência, tanto da leitura da realidade como do desejo de colaborar para melhorar essa realidade. E aí, em seguida, veio o próprio Sínodo 2021-2023. Aqui, no 7º Encontro Nacional da Pascom, o foco foi o Sínodo, a questão da sinodalidade, do caminhar juntos, e como a gente falou naquele momento em que nos dirigimos a todos os presentes, a sinodalidade é um reflexo da evangelização. O quanto somos evangelizados tanto proporcionalmente vamos conseguir caminhar juntos, ou seja, vamos conseguir nos amar e acertar o passo, nos amparando uns aos outros, esse cuidado de que o senhor nos falou. Um aspecto que me chamou a atenção dentro desse tema, é a questão da juventude. Gostaria que o senhor falasse um pouco sobre esse processo todo. De certa forma, foi do ponto de vista da comunicação que isso se deu. De repente, a Igreja entrou nas redes e começou a levantar o perfil dela. Começou a descobrir os problemas, as riquezas, as pessoas e também, por outro lado, esse é um momento que deveria mobilizar a juventude, atrair a juventude. Onde estão os nossos jovens nesse contexto?

 

Acho que é bom destacar que o continente Latino-americano foi o único que teve a oportunidade de fazer uma Assembleia Eclesial antes do Sínodo. Aliás, fazer Assembleia Eclesial não é um costume propriamente da Igreja. A Igreja tem o costume de fazer Assembleias Episcopais, também presbiterais, em alguns níveis, mas não, eclesiais, que junta todas as pontas, os fiéis ordenados, diáconos, padres e bispos. Fiéis, eles são fiéis a Jesus Cristo pela força do Batismo e os fiéis leigos e leigas, também fiéis, também pela força do Batismo. Chamar leigos e ministros da Igreja de fiéis leigos e fiéis ordenados, é um avanço. Nós precisamos ficar atentos à nossa linguagem porque precisamos buscar, em primeiro lugar, aquilo que nos unifica. E o que nos unifica é o Batismo. O reavivamento da graça batismal é que nos faz uma comunidade sinodal. Porque senão, nós vamos.  continuar é reforçando as distinções, diferenças, certamente com argumentos teológicos, pastorais, etc., mas que não facilitam o caminhar junto da Igreja, o princípio da sinodalidade. Então, a Assembleia Eclesial, foi muito importante. Aliás, é muito bom que se saiba que, também depois da Assembleia Eclesial da América Latina e o Caribe, vários grupos se organizaram; este fórum de que você está falando, mas, também, eu mesmo participo de um outro grupo que nasceu com a Assembleia Eclesial da América Latina. E nós, hoje, já conseguimos falar, fundamentar um pouco, a possibilidade de nós termos, no Brasil, uma Assembleia Eclesial, reunindo bispos, padres, leigos e leigas; reunindo, portanto, toda a Igreja, povo de Deus para conversar sobre o caminho que nós devemos percorrer. Isso é, já, praticar sinodalidade. O nosso desejo é que isso aconteça logo depois do Sínodo, para que a gente encontre formas conjuntas de praticar as resoluções do Sínodo. Bom, esse é um ponto. Um outro ponto que é muito importante, de fato, na perspectiva do Sínodo, é a questão aqui colocada, da juventude.

Não gostaria de estender assim, uma sombra, fazer aqui uma fala sobre as juventudes em relação à Igreja de uma maneira, digamos, mais leve, mais contornada, mais politicamente correto. Gostaria de fazer uma afirmação que é difícil de ser feita pela dor que ela provoca. A Igreja está perdendo, apressadamente, toda a juventude – toda a juventude, apressadamente.

Assim como ela perdeu os mais pobres dentre os pobres. Observe que as pessoas que estão vivendo nos grandes aglomerados das grandes cidades, nas favelas, onde tem muitos sinais da degradação da dignidade humana, mas também, claro, muita solidariedade, a Igreja está ausente. Ela prefere, muitas vezes, estar presente nas comunidades tradicionais, nas Igrejas tradicionais, nas matrizes. Mas esses lugares não são mais frequentados pelos mais pobres entre os pobres, pelos miseráveis, os famintos, que às vezes ficam na porta, esmolando, mas, não entram e muito menos, esses lugares não são frequentados propriamente pelos jovens.

Nós temos muitas juventudes, e temos juventudes que estão muito marcadas, e isso ainda tem segurado uma parte da juventude em algumas regiões da Igreja, alguns locais, algumas Igrejas, que são as comunidades emocionais. Mas as comunidades emocionais, tipo pentecostal, carismático, etc., essas comunidades, elas moldam muito Deus ao seu bel-prazer, às suas necessidades. E elas saturam, vão até um certo ponto e, depois, as pessoas não suportam mais. Portanto, nós temos aqui, estamos tocando num assunto da mais grave importância. Não adianta dizer não, na minha paróquia tem jovens, não, na minha comunidade tem. Sim, um pouco aqui, um pouco lá, mas, não passa de um pouco. E um pouco muito reduzido porque a grande maioria não se identifica com a linguagem da Igreja. A juventude na Igreja, não sente que ela é compreendida. E aí, ela passa também a não compreender aqueles que usam aquela linguagem que é transmitida por palavras, por homilias, por paramentos, por escolhas e assim por diante. Então, é um drama. Eu acho que ninguém tem uma resposta pronta. Mas, a Igreja deverá manter-se sempre aberta a um processo de conversão para ir ao encontro dos jovens, onde eles estão. E não onde nós desejamos que eles estivessem. E muito menos, esperar que eles venham aqui, dentro da igreja. Precisamos ir lá. Por isso, a intuição do Papa Francisco é uma intuição do seu carisma, do Espírito Santo, quando ele prega a Igreja em saída A Igreja em saída não é para. qualquer lugar. Uma Igreja em saída para as periferias, onde nós vamos encontrar os jovens. Periferias existenciais, sociais, geográficas, etc., onde nós vamos encontrar pessoas que não mais estão aqui, no cotidiano da vida religiosa de uma paróquia. E quem sabe lá, estabelecer comunidades, grupos de vivência da fé, da própria vida, a partilha da vida. E ali, quem sabe, começar a projetar novos caminhos para as nossas juventudes. As massas que se se encontram, por exemplo, nas Jornadas Mundiais da Juventude, tantas já foram feitas! É um movimento muito interessante e muito bonito, enche os olhos e dá esperança, mas, eles são de um viés muito pentecostal, portanto, eles acontecem e depois passam. Esvai-se!

Houve uma Jornada Mundial da Juventude do Brasil e eu pergunto, substancialmente, o que que mudou, de fato, na Igreja do Brasil? Então, não é uma crítica por fazer uma crítica. Mas, é uma crítica para a gente tentar encontrar a coragem que precisamos, de admitir que nós não conseguimos nos comunicar, na essência, com as juventudes. E nós corremos, de fato, o risco de não ter jovens muito proximamente na Igreja.

 

  1. Uma última questão para fecharmos esse momento, Dom Mol. Ao ouvirmos todos os palestrantes, todas as exposições e os momentos também em que houve contribuição, chegando de várias regiões do Brasil, sobre atividades realizadas pelas Pastorais da Comunicação, em paróquias, em várias cidades, nos chamou muita atenção, a tensão entre duas formas de pensar a Igreja, de agir, e que refletem também a polarização política que está acontecendo no país. Por um lado, ela é teórica e por outro, vazia de conteúdo, ocupada em defender aquilo que é indefensável, e com argumentos que provocam pronta rejeição. Esses dois conjuntos antagônicos demandam uma interseção para que se estabeleça o necessário espaço dialógico, para que se entendam e façam o bem juntos. Entretanto, se um dos conjuntos se assenta sobre base teórica, sobre a conjugação entre fé e vida, sobre a leitura autocritica e crítica da realidade, o outro não se abre nesse sentido. Diante desse contexto conflitante, a nossa visão para a construção desse tão necessário espaço dialógico traz de volta a fala da Irmã Maria Nilza no 7º Encontro Nacional da Pascom, que ficou como se fosse uma flor que brotou, se abriu, perfumou o ambiente, mostrou sua beleza e a sua função, encantou a todos, mas, não selou ainda, por si, o consenso possível. Num exemplo bem simples, o momento da ação dos apóstolos, como Irmã Nilza citou, foi de atrair e reunir com Jesus, a multidão. Eles agiram até o ponto em que não foi possível resolver o problema que se apresentou, as pessoas sentiam fome e eles não tinham como alimentá-las. Então, quem resolveu o problema? Quem podia fazer o impossível. Esse momento histórico que nós vivemos, no Brasil e na própria Igreja, de alguma forma, também pede algo que nos ajude a encontrar a solução necessária. A oração, de certa maneira, ela é a visita, a abertura na mente de todos, capaz de abrir o espaço dialógico que precisamos, mas, internamente, porque como diz Victor Codina em “Não extingais o espirito”, chega o momento em que temos que ouvir Espirito Santo mesmo, sua inspiração tem que ressoar dentro da pessoa, nós não vamos conseguir convencer apenas com palavras.

 

O Espírito Santo, Ele age sempre iluminando. A iluminação do Espírito para um momento como esse, de grande dificuldade de fazer a interseção dos grupos, dos círculos, etc, e, sobretudo, pela força também da polarização ideológica que está aí muito forte, de certa forma, porque muitas pessoas nem têm consciência, digamos, da estruturação sistemática, do que que se constitui uma ideologia propriamente dita. Nós precisamos captar essa iluminação do Espírito. Agora, a iluminação do Espírito, ela de fato joga luz naquilo que não pode ser confundido. Então, eu penso que um caminho muito interessante para que a gente possa, inclusive, conviver com a força da oração que nos une etc., é a gente saber distinguir a partidarização da problemática, dessa problemática, da consciência do lado que nós precisamos ocupar. Então, uma coisa é a Igreja colocar-se de maneira crítica, crítica em relação a todo e qualquer partido, porque todo e qualquer partido, por seu programa, na sua prática, nas suas pessoas, etc., precisa, carece, de fato, de olhares críticos. E a Igreja tem que exercer esse papel e por isso ela não adere a um, porque significa aderir não só a uma parte, como o nome está dizendo, mas, aderir a uma fragilidade, porque todas as partes têm as suas fragilidades. Ela não adere. Agora, ela adere, não pode deixar de aderir, sob o ponto de vista moral, teológico e pastoral, a um lado. Ela não tem partido, mas tem lado. Qual que é o lado? O lado é aquele definido claramente pelo Evangelho. É o lado dos pobres, dos pequeninos, das crianças e das mulheres que na cultura de lá e na cultura de cá, ficam à margem de muitas coisas. É o lado da justiça, é o lado da paz, é o lado dos valores que configuram o Reino de Deus, então, os valores do Reino, os valores anunciados por Jesus Cristo. Se a gente tem clareza que é deste lado que a Igreja se encontra e que ela definitivamente, decididamente, não pode ocupar outro lado a não ser esse, porque ela deixa de ser a Igreja do Evangelho, portanto, deixa de ser a Igreja de Jesus, isso facilita, facilita a possibilidade do diálogo porque eu não vou discutir o partido. Eu vou discutir o lado. Eu vou é me colocar do lado de quem está enfraquecido para fortalecer, assim como Jesus fez, socorreu as pessoas, sentou com as pessoas, foi visitar as pessoas, e assim por diante. Então, esse é um ponto da iluminação do Evangelho que é fundamental, no meu entendimento. E eu penso que, na cabeça de muita gente, ter clareza do lado que nós ocupamos, se confunde com a adesão a possíveis partidos, ABCDE, não é? Mas, não, são questões distintas. É claro que elas se iluminam mutuamente, porque eu não sou contra os partidos porque não existe democracia sem partidos, ainda que sejam partidos ruins. Mas, eles estão ali e compõem o quadro democrático, o Estado de Direito, isso não tem dúvida nenhuma, mas, a nossa questão fundamental não é essa. Nossa questão fundamental é a fidelidade ao Evangelho, que nos coloca do lado daqueles que de fato ganharam, digamos assim, a preferência na pregação e nas atitudes de Jesus. Que são os pequeninos – vamos usar essa palavra – são os pequeninos, em todos os aspectos, os pequeninos, é do lado deles que nós precisamos ficar. E eu penso que aí que se encontra um caminho para poder discutir, dialogar; não briguemos por causa dos partidos, mas, vamos deixar cada vez mais explícito, o lado que nós ocupamos. Penso isso. Que alegria, viu, uma paz para todo mundo que está lá na Arquidiocese de Uberaba!

 

Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, Reitor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação da CNBB.

 

*Rita De Blasiis, Pedagoga, Mestre em Educação.

Pascom da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Uberaba MG

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