Sobre o Sínodo dos Bispos – 2023: um olhar sobre a nossa realidade! (parte 3)

Um olhar sinodal para as periferias humanas e geográficas

  O processo de escuta sinodal mostrou-se bastante sensível às realidades das periferias humanas e geográficas, reconhecendo que ainda estamos em falta na conjugação de quatro verbos: aproximar, escutar, discernir e integrar, decorrentes do encontro de Jesus com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), e tão fortemente indicados pelo Papa Francisco como necessários à evangelização em nossos dias.

  Se cresce o número de pessoas em situação de miséria, situação de rua, vidas ceifadas pelo tráfico de drogas, prostituição, exploração do trabalho, abuso de menores, violência contra a mulher, deveria crescer nossa presença, pois eles são sacramentos vivos de Cristo Jesus (Mt 25,31-46). Não é possível viver o Evangelho de costas para a realidade das pessoas e de nossas cidades. Por isso, a premência de uma maior articulação entre fé e vida se faz ressoar. Faz urgente dinamizar a Caritas Arquidiocesana, as pastorais sociais, os serviços caritativos, apoiando as organizações populares, como forma de transformar a realidade, muitas vezes cruel e bruta. Verificamos entre nós, a presença de migrantes vindos da América Latina, África e de outros lugares, em nossas ruas e avenidas, mendigando acolhida e socorro. Como integrá-los para que não sejam invisíveis e párias da sociedade? Recordemos a figura do bom samaritano (Lc 10,25-37), junto a um desconhecido, oferecendo-lhe o coração, para o resgate de sua dignidade ferida. Em nossa Arquidiocese, brilha um ícone desta parábola, Frei Gabriel de Frazzanò, cujo processo de beatificação foi aberto em Frutal. Dele foi escrito: “Ele não julgava, mas servia. Ele não discutia, mas ajudava. Ele não tinha eloquência de palavras, mas a abundância de ações humildes”! (Conferência dos Capuchinhos do Brasil – CCB).

  Tristemente foi constatada a exclusão de muitos casais de segunda união, que não se sentem acolhidos em nossas Igrejas e comunidades, como se carregassem uma lepra pela constituição de uma nova família, e certamente junto destes estão crianças e jovens vivendo e crescendo sem conhecer o amor de Cristo, também estigmatizados como se fossem “filhos do pecado”. Falta-nos empenho na aplicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.

  Aqueles e aquelas que vivem a sexualidade e afetividade diferentemente da heteronormatividade não só se sentem excluídos da comunidade, como também não percebem que se abrem espaços para que possam viver a fé. Assim, são alijados do encontro com o Evangelho. Neste sentido, houve muitos pedidos para organizar nas comunidades paroquiais e no nível arquidiocesano a Pastoral da Diversidade Sexual. “Este é mistério da Igreja que, na convivência harmoniosa das diferenças, é sinal e instrumento daquilo a que toda a humanidade é chamada” (Papa Francisco).

  A Teologia do Corpo e da Sexualidade necessita ser revista pela Igreja. Há conceitos defasados que levam a mensagem do Evangelho ao descrédito. Há premência de uma nova abordagem do corpo, sexualidade, afetos, desejos, que sejam vistos como fontes de graça e de comunhão entre as pessoas. Uma teologia que não fala ao coração das pessoas torna-se inútil, desnecessária, deixada de lado.

  À margem da Comunidade de Jesus Cristo, estão os universitários e universidades, com quem perdemos a interlocução, presença e linguagem. A Igreja sempre teve uma presença significativa nesses ambientes e, sobretudo, sua Doutrina Social tem sido muito bem considerada pela sua seriedade cientifica e na abrangência de seu significado pastoral. Universidades e universitários, um campo a ser missionado, como nos indica a CNBB.

  As mulheres, mesmo que sejam a grande presença nas comunidades, são subtraídas de muitos ministérios, sobretudo daqueles confiados aos homens. Não há dúvidas de que nossas comunidades são geradas pelas mulheres, que incansavelmente encontram motivação e tempo, entre a família, trabalho profissional e o serviço ao Evangelho. Elas são uma presença constante nas pastorais, movimentos e serviços, desdobrando-se com ternura, cuidado, determinação e desvelo nos mais variados serviços à fé e à vida. Há um clamor para que a Igreja reveja sua disciplina, possibilitando a presença feminina noutros serviços e ministérios.

  Os trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo necessitam de uma presença profética da Igreja, sobretudo num tempo em que os direitos sociais e trabalhistas são diuturnamente aviltados. Testemunho eloquente junto aos movimentos sociais tem sido o Papa Francisco, como que a nos sacudir diante da sonolência e apatia pelas questões sociopolíticas e econômicas.

  A Igreja deixou as periferias das cidades, sobretudo com a desarticulação das Ceb’s e das pastorais sociais, e essas periferias foram ocupadas pelas denominações neopentecostais. A presença da Igreja nesses lugares carece de incentivo, formação e apoio. De certa forma, a Igreja foi capturada pelas áreas de maior conforto, recursos e visibilidade. Estar entre os últimos é uma verdadeira kénosis, um aniquilamento, diante de um mundo mediático e narcisista.

  Diante de uma realidade, tão necessitada de cuidado, deixemo-nos interpelar pela prece eucarística: “Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo!” (Oração Eucarística VI-D).

Um olhar sinodal sobre a Igreja e a nossa Casa Comum (Ecologia)

  “A conjugação entre ação evangelizadora e ecologia é uma das maiores exigências da humanidade em busca de sobrevivência. O ser humano é convidado a uma mudança de rota, saindo do comodismo e do consumo irresponsáveis que a sociedade materialista impõe, para penetrar sempre mais na dinâmica de uma nova consciência cósmica, planetária, de uma fraternidade criatural entre tudo o que existe. Assim, como humanos, redescobrimos a nossa própria essência como bem evidencia Francisco na Encíclica Laudato Si’ (LS): ‘Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra’ (LS, n. 2) ‘e que, entre os pobres mais abandonados e maltratados, encontra-se a nossa terra oprimida e devastada, que está gemendo como que em dores de parto’ (LS, n. 2). O cuidado com a casa comum, o meio ambiente, faz parte da agenda pastoral da Igreja, como expressão de sua reverência para com o Criador, a preservação da espécie humana e uma relação de dignidade com as criaturas” (Elias Wolff).

  Neste sentido, a Arquidiocese se Uberaba está situada numa terra abençoada, pela riqueza de seu solo, abundância das águas – inclusive águas medicinais – flora, fauna marcadamente como expressões do bioma do cerrado e uma topografia que parece ligar o nascente ao poente. Por isso mesmo, é nossa responsabilidade a difusão de um cultivo da natureza na perspectiva da ecossustentabilidade. Diante da voracidade do mercado agropastoril e minerário, urge organizar uma ação pastoral, com o olhar sobre o meio ambiente, o perigo da devastação e do uso indiscriminado dos recursos ambientais. Vozes do mundo cientifico tem nos alertado sobre o esgotamento da terra, o aquecimento global, o efeito estufa, a poluição e o envenenamento do solo e das águas.

  No processo de escuta sinodal, foi apresentada a necessidade da inclusão do cuidado com a Criação desde a catequese até a formação de leigos e leigas, perpassando todos os movimentos e pastorais. E, ainda, foi destacada a urgência em catalogar os lugares de mineração, situação dos rios e grandes nascentes, bem como de ações que colocam em risco o meio ambiente, em âmbito arquidiocesano, e iniciar uma articulação pastoral em vista desta realidade.

  Iniciativas na difusão das Encíclicas Laudato Si’ (sobre cuidado com a criação) e a Fratelli Tutti (sobre fraternidade humana), e a articulação com os programas “Economia de Francisco e Clara” e “Pacto Global pela Educação”, propostos pelo Papa Francisco, nos oferecem os elementos necessários para uma articulação pastoral, tendo como horizonte o meio ambiente e a vida humana.

Um olhar sinodal: Ecumenismo e Diálogo inter-religioso

  Ecumenismo é o diálogo entre as igrejas cristãs, que professam a fé em Jesus Cristo, na Santíssima Trindade e no Mistério Pascal. Ao contrário do que muitos pensam, ecumenismo não é englobar todas as religiões cristãs numa só igreja, e sim criar pontes entre as diferentes denominações cristãs, de modo a estabelecer um relacionamento fraterno e respeitoso, de tal maneira a testemunhar aquele que nos une, Jesus Cristo. O ecumenismo é um desejo do coração de Jesus, que reza suplicando ao Pai: “Que eles sejam um, para que o mundo creia!” (Jo 17, 21).

  O diálogo inter-religioso sugere o encontro respeitoso entre as religiões de diversas matrizes, discernindo a graça de Deus, que se manifesta onde quer e como quer, buscando testemunhar a justiça, a paz, a promoção humana e o cuidado com a “Casa Comum”, o meio ambiente.

  Em ambas as dimensões, ecumênica e inter-religiosa, verifica-se que ainda temos um longo caminho a percorrer, nossas iniciativas são muito tímidas e pontuais, nada de mais abrangente. Com as Igrejas Cristãs oriundas da Reforma de Lutero, a proximidade, escuta e partilha são mais promissoras. Com as denominações religiosas de gênesis neopentecostal, a proximidade é quase impossível. “Ter fé madura, sem preconceitos, é sinal de vida”. (Dom Paulo Mendes Peixoto).

  Em nossa realidade arquidiocesana, a presença da Doutrina Espirita é muito presente. Diante disso foi sugerido maior abertura e diálogo com seus membros.

  O Papa Francisco tem nos oferecido “o testemunho do ecumenismo e diálogo inter-religioso das mãos”, isto é, se as diversas doutrinas podem nos levar à divisão, o trabalhar juntos – em vista de uma sociedade mais harmoniosa, na busca da justiça, no serviço aos empobrecidos e no cuidado com a ecologia – pode unir-nos.

  Cabe-nos recordar, na memória do coração, o que diz o Concilio Vaticano II: “Há sementes do Verbo presente nas diversas religiões do mundo, mesmo as não cristãs. A Igreja Católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia refletem não raramente um raio de verdade que ilumina todos os homens” (NA 2).

  Espera-se que a Igreja esteja aberta e disponível para fazer da sinodalidade uma dinâmica constante no caminhar eclesial. “Caminhar juntos – ensina o Papa Francisco – é a via constitutiva da Igreja, a cifra que nos permite interpretar a realidade com os olhos e o coração de Deus, a condição para seguir o Senhor Jesus e ser servos da vida neste tempo ferido”. (Comissão Teológica Internacional). O desafio de uma Igreja sempre mais sinodal é uma constante. Animemo-nos, pois, com as promessas de Jesus: “Estarei convosco até o fim dos tempos!” (Mt 28,20).

  Confiamo-nos a Maria, Nossa Senhora D’Abadia, nossa padroeira, a mulher sinodal, que caminhou junto de seu Filho, nas estradas de Nazaré, para que ela nos inspire sempre a escutar, discernir, e colaborar na edificação de uma Igreja sempre mais sinodal, proclamando as maravilhas do Senhor, colocando-se ao lado dos pequenos e humildes, para que o Reino de Deus se realize em toda a humanidade. Que ela interceda para que sejamos uma Abadia, Casa do Pai, e isso nos basta.

Equipe de síntese sinodal, Arquidiocese de Uberaba, MG

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